História e Lenda


Tito Lívio Ferreira


Canning e José Bonifácio


Apeados do poder, em julho de 1823, os dois Andradas, José Bonifácio e Martim Francisco, exerceram, de fora e de rijo, o ministério do faccionismo. A queda política de ambos, colocara no mesmo planos os três irmãos desavindos, em certo momento, quando a Assembléia muito exageradamente, se presumira de “constituinte e legislativa”. Antônio Carlos, situado onde estava, recebia, com entusiasmo, o reforço dos irmãos ainda há pouco intrépidos na defesa do governo. Forma assim a frente única esse trio de ases da política, da inteligência e da cultura. Ia agir, na tribuna e no jornal, desenvolvendo, com desenvoltura, a sua atividade temível e temida. Era levada dos demônios, na oposição, a santíssima trindade; santíssima sim, e o superlativo não é demais, porque eram eles de Santos. Daí, Antônio Carlos, a 27 de outubro de 1823, dizer na Assembléia: “Amando todo o Brasil em geral, contudo amo mais a província de São Paulo e nela amo mais a vila de Santos e nessa ainda talvez a pequena casa em que nasci me seja agradável”. José Bonifácio, envolvendo a família, costumava explicar: “Meu irmão Antônio Carlos é um sábio; meu irmão Martim Francisco sabe muito, mas eu sei mais do que os dois”. Nisso ele não exorbitava. Sabia. Senhor de enorme cultura intelectual, fizera, em filosofia e letras, profundos estudos. Dante e Shakespeare, Schiller e Goethe eram-lhe tão familiares como Camões e Vieira. Manuseava, com mão diurna e noturna, os clássicos, gregos e latinos. Consagrado mineralogista, os centros científicos estrangeiros davam-lhe merecido apreço e cultura. Para complemento, falava seis línguas e entendia onze. Quando lhe convinha desentendia as dezessete.

Ora, com esses três mosquiteiros do talento e da intolerância pela proa, o incontinente imperador, quando lhe pareceu azado o momento, obrigou-os a mudar de rumo, exilando-os. Surge esse instante propício com a dissolução da Constituinte. Para refrescar o cérebro incandescente desses pugnazes lutadores foi-lhes conferido, por equidade, o prêmio de viagem à Europa. Poderiam eles recusar, por incontida modéstia, a recompensa com que lhes acenou a magnanimidade imperial, pelos seus indeléveis serviços prestados à pátria. Nessa eventualidade os três Andradas foram presos e postos sob custódia no mesmo dia em que foi dissolvida a Assembléia. Um mês depois na charrua “Lucônia”, ei-los sulcando o Atlântico.

Batido por horrível temporal, o calhambeque, após quase três meses de travessia, ancora em Vigo. Vigo recebe os passageiros com receio e lhes reserva o mais desprezível acolhimento. Trata-os pior que a piratas pobres. Dispensa-lhes a mais descarinhosa hospitalidade. Beneficia-os com todos os maus tratos governamentais. Coloca no porto, de prontidão, a tropa disponível, em frente ao derreado barco. Intima o comandante a não mais içar a bandeira nacional. Completa a benemerência arrancando à “Lucônia” o leme inutilizado. Protestos platônicos da oficialidade revoltada são abafados pelos mantenedores da ordem em perigo.

Dias depois os viajantes querem desembarcar. Para isso pedem, à autoridade máxima em Tuy, consentimento. O requerimento é despachado para a Junta de Saúde resolver, como entendesse. Reiteram o pedido ao capitão general da Galiza. Este, com ser pouco capitão e muito general, não deu, ao assunto, a mínima importância.

Os portugueses, seguiam, com impaciência, as manobras dos espanhóis, empenhados em maltratar, os brasileiros itinerantes à força. E a corveta portuguesa “Lealdade” vigiava, alertada, a decrépita “Lucônia”. Afinal a corveta deixa a barra, para lá fora, de passagem, atirar-se sobre o inválido navio e jogá-lo ao fundo com sua preciosa carga. Acontecesse tal coisa, e pouparia, humanitariamente, a desumanidade consumada pelos espanhóis, com o mais altivo desprezo pelos nossos patrícios.

As autoridades competentes resolvem, enfim, obrigar os emigrados a deixar, no seu barco, as águas espanholas dentro de oito dias improrrogáveis. A assistência prestada aos estrangeiros constrangia os nacionais. Revoltados com essa desnaturada ordem, os Andradas e seus companheiros não se dão por vencidos. Representam ao governador geral em Tuy, alegando não lhes ser possível obedecer ao formal mandado de despejo por não permitir o estado do apodrecido navio, e afirmavam: “Declaramos pois categoricamente a v. s. que estamos resolvidos a fretar um navio neutro, ou quando se nos negue este direito apesar de toda a justiça e hospitalidade, a considerar-nos como prisioneiros do governo espanhol, que poderá a seu salvo entregar-nos a Portugal carregando com a imputação desta negra ação”. As palavras “justiça e hospitalidade” deviam ter soado muito mal ao ouvido das autoridades, porque somente o silêncio espesso e estranho se adensou entre suplicantes e suplicadas. Terminada a quarentena imposta pela violência dos espanhóis, Martim Francisco e o padre Belchior descem à terra para se entenderem, verbalmente, com o atrabiliário governador. Houve um esparramo entre as autoridades. O capitão da inutilizada “Lucônia” foi preso e conduzido diante do governador. Este, com destemerosa insolência, científica, de viva voz, ao comandante de que a charrua está completamente segregada dos homens e dos poderes constituídos.

Em fins de março, as desaforadas autoridades hão por bem consentir na saída da inválida galeota por “ver que ha llegado ya el momento de que reciva V. S. ordens terminantes para que no tenga in el, mas molestia...”. Postos assim, barra afora, os emigrantes volveram as esfalfadas esperanças para outra terra, numa súplica contra tanto tropeço e tanta injustiça.

José Bonifácio apela em último recurso, para o seu ex-colega Canning, ministro da Inglaterra. Georges Canning recebera a visita de Caldeira Brant e de Gameiro Pessoa, representantes do Brasil, para negociarem o reconhecimento da Independência. Tratara-os com franqueza, interesse e lealdade. Dissera-lhes qual o caminho a seguir, sem sinuosidades e sem temores. A questão era, concluíra ele, ironizando, apenas econômica. Solvido esse compromisso, o resto estava feito. Nessas alturas é que José Bonifácio resolve apegar-se a Canning. Recorre ao ministro pedindo-lhe, em francês, o amparo britânico para se pôr a salvo dos malefícios dos espanhóis. Velejava, sem o perceber, nas mesmas águas onde naufragara onze anos antes o gênio de Napoleão, e encerra o ofício, atropelado e aflito, com estas palavras: “...j´ose vous prier donc, Excellence, de vous interesser à notre sort, et de nos malhereuses Families, qui n´avons dans l´etât, où nous sommes, a qui nous adresser pour adoucir nos maux, qu´à la generosité Britanique, et la justice et bonté de votre Gouvernement. L´Empereur, et la Nation, sçauront reconnoitre um jour cet important service”.

Por muito esperada, a resposta tornou-se desesperada, porque jamais chegou.

José Bonifácio e seus companheiros de infortúnio, transportados pelo “San Martin”, arribaram em começos de julho, a Bordéus, a cidade que mereceu, mais tarde, os melhores elogios do velho Andrada.

Georges Canning se não havia atendido ao pedido dos brasileiros desamparados, atendia por outro lado, com precisão e certeza, às necessidades do Brasil. Caldeira Brant e Gameiro Pessoa, mal sucedidos e atônitos, regressaram ao Rio de Janeiro. As palavras de Canning mordiam, com firmeza, o pensamento desses brasileiros. D. João VI exigia dois milhões de esterlinos para reconhecer a independência; pois bem, aconselhara o estadista inglês, só havia um recurso: era pagar. Com essa medida, a Inglaterra ficava satisfeita e se dava por bem paga. Despachado para completar as negociações meio entabuladas, sir Charles Stuart vem liquidar, em família, esse arranjo doméstico. De passagem por Lisboa, o representante inglês recebe, do governo português, procuração para assinar o tratado definitivo. A 29 de agosto de 1825, no Rio de Janeiro é assinado esse documento reconhecendo a emancipação de nossa terra.

Estipula o tratado, em “convenção adicional”, da mesma data, que, “sua majestade imperial, convém, à vista das reclamações apresentadas de governo a governo, sem dar ao de Portugal a soma de dois milhões de libras esterlinas”...reza o artigo primeiro. O artigo segundo esclarece: “Para pagamento desta quantia toma sua majestade imperial sobre o Tesouro do Brasil o empréstimo que Portugal tem contraído em Londres no mês de outubro de mil oitocentos e vinte e três, pagando o restante, para perfazer os sobreditos dois milhões esterlinos, no prazo de um ano, a quarteis (1), depois da ratificação, e publicação da presente convenção”.

E assim, só assim poderia o astuto e habilíssimo Canning servir à Inglaterra, servindo ao mesmo tempo, ao Brasil e a Portugal.

“L´Empereur et la Nation sçauront reconnoitre un jour cet important service”, escreve o Patriarca cerca de dois anos antes. Foi soante e consoante esse reconhecimento. Todavia, ao recorrer à generosidade britânica e à justiça e bondade do governo inglês, José Bonifácio estava, é de ver, bem esquecido do acolhimento dispensado ao genial corso quando este, com humana ingenuidade, procurara, em desespero de causa, o amparo e o abrigo da generosidade inglesa. Contudo, se lhe tivesse ocorrido nesse passo difícil de sua existência, o grande Andrada não escreveria mas “falaria”, por certo, outra linguagem bem tinida ao ouvido agudo de espanhóis e ingleses. Diante desse metálico idioma todas as dificuldades seriam dissipadas com júbilo e diplomacia. Fosse outro o imperador e o resultado seria diferente. E, por sem dúvida, contentaria a todos, de maneira particular.

Nota do Jornaleco: 1. quarteis: juros ou impostos.

Presságios


Houve nos primeiros séculos da fundação de Roma, narra Tito Lívio, um ano terrível, tais foram os acontecimentos ocorridos em terra e os fenômenos avistados no céu. Esse ano foi bem diferente dos outros. Os outros rolavam no mesmo círculo de eventos comuns a cada ano. “Ut idem in singulos annos orbis vulveretur”, diz o historiador latino. Contudo, nem sempre os anos deslizam da mesma forma, dentro da claridade dos dias e da treva das noites. O tempo escorrega surdamente. Parece levar pés de lã, pois ninguém percebe os seus passos. E nesse anos os prodígios foram de causar assombro. Assim, o céu cobriu-se de fogo; a terra passou por medonhos abalos; acreditou-se que uma vaca falara, no que não se acreditaria no ano anterior. “Eo anno coleum ardere visum; terra ingenti concussa motu est: bovem locutam, cui rei priore anno fides non fuerat”, conta o grande historiador de Roma.

Ora, arder o céu todo em fogo, não é coisa extraordinária. Ainda há poucas semanas os habitantes do sul da Europa, notadamente de Portugal, Espanha e Itália admiraram, apavorados, o esplendor rubro de uma aurora boreal a incendiar a abóbada por onde gravitam os atros. Esse fenômeno despertou, nas populações, a simples e milenar idéia do fim do mundo. Essa idéia corre os espíritos atribulados e percorre os povos temerosos, muito principalmente se os terremotos se amiudam. Habituado a tremer, da superfície aos fundamentos, o globo terrestre dilata a sua mobilidade, quando entra a oscilar com maior ou menor violência. Esse tremor terrestre põe as criaturas trêmulas de terror e pânico. Aliás, isso pode ser explicado, de maneira absoluta pela teoria da relatividade de Einstein, aplicada com segurança aos imprevistos movimentos da terra.

Destarte, sem desertar o campo aberto da ciência, aí está meia explicação dos sucessos desenrolados no referido ano. Resta saber como a vaca poderia falar aos entendidos em linguagem dessa natureza. Porque o historiador se limita, conscienciosamente, a descrever o fato sem se ater a pormenores explicativos? Que teria dito a vaca? “Chi lo sá?” diria o autor da História de Roma se vivesse em nossos dias. Seria, é de supor-se, conversa interessante “para boi dormir”, ruminando. Mas como foi alta e claramente mugido, deixou os ouvintes preocupados. E o sucesso, bem anotado, atravessou os séculos.

Agora, se o povo acreditou, nesse ano, na facundia bovina da qual duvidara no ano antecedente, isso é natural e humaníssimo nos moradores do orbe terráqueo. Descrer hoje daquilo que os olhos viram ontem, para acreditar amanhã, apenas por ouvir dizer, em coisas jamais vistas, é peculiar ao homem e à mulher, desde os tempos primitivos. O bípede humano é contraditório por excelência. E o seu forte, é vem de ver, está nesse fraco.

Todavia, os milagres desse ano não andaram somente por esses casos. Outros relata o memorialista, sem lhes atribuir foros de verdade. Nesse tempo choveu carne já retalhada em pedaço s de tamanhos vários. Os pássaros revolutearam por entre a chuva carnal e comeram-na pela maior parte. A restante, a que escapou aos bicos vorazes, ficou durante alguns dias sobre a terra, sem perder o cheiro, nem a cor, nem o aspecto característico às postas de carne frigorificada nas alturas, devido à baixa temperatura reinante nos espaços interplanetários.

Chuva igual a essa apetecida e apetitosa, ainda não caiu neste início de ano. Entretanto, daqui até fins de dezembro vindouro, talvez se possa apreciar essa maravilha. Nesta quadra em que a crise impera e avassala os povos, bem pode ser que os céus clementes desabem sobre os homens inclementes, bendita e boa chuva de carne fresca,, sem osso nem contrapeso. Porque a repetição desse acontecimento registrado pela história não é de causar pasmo a ninguém; muito menos às pessoas necessitadas desse benefício. Há poucos dias estivemos, é verdade, na iminência de sentir os efeitos de uma chuva magnética. Anunciada pelos jornais, antes do dia marcado, ela fez muita gente perder o sono de medo de perder a vida. Enfim, depois de muitos dias de angústias, os astrônomos, do alto de suas torres observatórias, dignaram-se fazer saber aos medrosos que a coisa se passaria nas profundidades mais longínquas da atmosfera. Todos ficaram desapontados com a notícia. E para se refazerem do medo e do logro, puseram-se a imaginar, com uma pontinha de inveja, como seria, nesses remotos lugares, uma tempestade magnética.

E os romanos? Que fizeram diante de tanto caso sobrenatural? Consultaram os duúnviros. (1). Estes folhearam os livros sagrados. Depois recomendaram à população que era muito de recear o aparecimento de estrangeiros dispostos a apoderar-se das colinas de Roma, onde o sangue correria. Para evitar esses possíveis males, os romanos deviam abster-se, ao menos por todo o ano, de forjar dissensões internas. Os tribunos, porém, magistrados incumbidos da defesa dos direitos das gentes, eram desabusados no exercício de seus mandatos. Interpretaram logo a advertência de maneira oposta. Pretendiam, em suas arengas, que os duúnviros visavam, por essa forma, trancar os debates e as leis a serem apresentadas. E com argumentos de igual calibre desfecharam, mais uma vez, a cizânia entre plebeus e patrícios. O bate-boca, cada vez mais acirrado, inflamava inteligências e ódios. Irritados, com o cérebro e os corações a arder, preparavam, nesses prélios de eloqüência desatada, a guerra contra o estrangeiro. E a guerra, distração favorita e entretenimento imperioso dos povos da época, fez derivar, como sempre, a atenção de governantes e governados, para o inimigo quase às portas da cidade. No entrevero dos combates precedidos de consultas aos arúspices (2) e áugures (3), sob os auspícios dos deuses, generais e soldados esqueciam as lutas sociais e políticas intramuros, para relembrar, ansiosamente, extra, os vaticínios e presságios. E assim rolam os anos em silêncio, na estrada infinita do tempo infinito.

Nota do Jornaleco: (1) – magistrados romanos. (2) Na antiga Roma, o sacerdote que adivinhava o futuro mediante o exame das entranhas das vítimas; áuspice. (3) - Sacerdote romano que tirava presságios do canto e do vôo das aves; agoureiro.


Estudantes e Mestres Vagabundos


Havia nos séculos XII e XIII e mesmo depois, com o florescimento das Universidades, uma face característica e inédita da vida estudantil da idade média. Ela operava um aspecto novo no “curriculum vitae” dos estudantes. Estes fugiam, na organização universitária, à disciplina rígida imposta pelo monasticismo dos primeiros séculos, para se entregarem , com delícia, a uma existência mais livre e de mais facilidade. Era-lhes facultado, pelo estatuto das universidades, passar de um estabelecimento para outro, onde podiam, ao seu alvedrio, permanecer quanto tempo quisessem ou pudessem.

Generalizada como estava, por essa época, a mendicância, nenhum inconveniente havia em os moços andarem de curso em curso, de castelo em castelo, de mosteiro em mosteiro, sem responsabilidade e sem cuidados de qualquer natureza. As Cruzadas, as peregrinações, as guerras, espalhavam, pelas estradas batidas da Europa, verdadeiras populações flutuantes e erradias. Cavaleiros, clérigos, peregrinos, mercadores, frades, estudantes, constituiam-se em turmas, em bandos, em grupos e iam de albergue em albergue, à mercê da fantasia e da caridade pública, pois viviam esmolando.

Dispersos pelas cidades, os estudantes, em grande número, levavam uma existência de boêmios; agrupados, palmilhavam estradas, para se transportarem, a pé, de Universidade em Universidade, sedentos de saber, e de liberdade.

Organizados em nações, conforme a naturalidade do professor, os estudantes estáveis congregavam-se sob a proteção do “magister”, cuja linguagem natal lhes soava bem ao coração e ao ouvido, porque melhor o compreendiam. Por sua vez, os estudantes instáveis também tinham sua organização e o seu patrono. De serem protegidos por São Golias, eram chamados “goliardi”, isto é, goliardos. Adotaram um viver transitório, precário sempre, mas permanente, por ser dilatado no tempo e no espaço.

Ao lado desse tipo de estudante vagabundo, um outro, muito interessante, para logo aparece. É o do mestre vagabundo. Muito embora se houvessem multiplicado as Universidades, os professores se quadruplicaram, e, para as necessidades dos cursos, estavam sobrando. Começou a verificar-se o estranho fenômeno da superprodução de mestres. Pelo visto, parece datar desses tempos remotos o excesso de abnegados deformadores da inteligência, na opinião, muito discutida, de Nietzsche. Então, mestres e estudantes vagabundos, ou vagamundos, como querem alguns filólogos lusitanos, passaram a viver de companhia, ao longo das estradas, dos burgos e das cidades. Formaram colunas errantes para correrem e percorrerem, por espaço de três séculos, países, escolas e universidades. Aos estudantes e mestres errantes juntaram-se, com o deslizar dos tempos, crianças de seis a sete anos. Acompanhavam os maiores para aprender as primeiras letras. Serviam, na realidade, de criados dos graúdos, em paga de um parco A.B.C. Obtinham alimento e dinheiro, cantando. Esmolavam para si e para os companheiros. E assim iam vivendo.

Um monge das primitivas Universidades pinta, em cores primárias, esses camaradas andejos: “Os estudantes estão acostumados e vagar pr todo o mundo, a viver em todas as cidades e a freqüentar todas as escolas. Em Paris, acham conhecimentos das artes liberais; de escritores antigos, em Orleans; de Medicina, em Palermo; de Nigromancia, em Toledo, e, em parte alguma, aprendem as boas maneiras”. Boas maneiras era justamente o que lhes minguava. Beberrões imprudentes, desabusados, ostentavam todos os vícios. E para isso a aprendizagem lhes era contínua e completa.

Desse mal se queixava, com acertadas razões, o monge medieval. Pelos séculos adiante os goliardos refinariam, cada vez mais, esses péssimos costumes.

Certo é que o abuso criou a necessidade de se pôr um paradeiro a esse estado de coisas. A primeira reação partiu de Nuremberg, centro cultural da Alemanha. Uma ordenança municipal estabeleceu que só era permitido, daquela data em diante, a um estudante, nunca a mais de um, angariar esmolas para a comunidade, em determinada paróquia. E impunha, ao universitário, a obrigatoriedade de trazer, sob a cesta em que recolhia a coleta, em lugar visível, a imagem do santo patrono.

As “bandeiras do divino”, popularizadas entre nós, meio proibidas agora, podem bem ser, pela sua analogia, reminiscência longínqua desse hábito introduzido nas sociedades medievais pela necessidade de regularizar, “per omnia secula”, uma instituição cujas raízes se perdiam nas sombras dos séculos.

Todavia, mestres e estudantes vagabundos nem sempre viveriam em boa paz, entregues, tão-somente, às discussões filosóficas, arrastados pelos argumentos. de todos os filósofos gregos é bem possível que Protágoras fosse o mais invocado pelos mestres em desespero de causa e de estômago. Porque, segundo narra Montaigne, aquele mestre grego, esgotada toda a dialética, propunha aos alunos insensíveis à sua retórica e ao pagamento dos honorários vencidos: “Ou eles lhe pagavam conforme o trato previamente feito, ou então se dirigissem ao templo e, diante dos deuses, dissessem em quanto avaliam o aproveitamento obtido em sua disciplina, e lhe fizessem o pagamento de seu trabalho, na base dessa estimativa”.

Especulativa e ingênua era a proposta do filósofo. Nem o estudante ateniense, nem o das Universidades medievais, e muito menos o de hoje, em tudo semelhante aos colegas de outrora, entenderiam o conceito contido na segunda parte da proposição de Protágoras. Mesmo porque o entendimento do estudante, por ser sabido, não chega, nem por milagre, a penetrar no cerne do assunto. Este escapa às suas cogitações, por estar fora de órbitade seus imediatos interesses de aprendizagem.

De resto, o aluno jamais entende daquilo que com o professor se entende.