História e Lenda


Tito Lívio Ferreira

 


São Paulo em 1855


Estrangeiros ilustres visitaram São Paulo, no século passado, levados pela curiosidade científica de conhecerem o Brasil através dos variados climas de seu extenso e desconhecido território, palmilhado outrora apenas pela ousadia indômita dos bandeirantes devassadores dos misteriosos e longínquos horizontes de nossa pátria. De regresso aos países de origem escreveram notícias sociais a respeito de nossa gente e de nossa terra, à vista de apontamentos, de anotações, ou com o simples auxílio das impressões gravadas nas folhas efêmeras da negaceante memória. Informativos impressionistas engrossam muito, a leva dos sociólogos de outiva, onde a observação e a análise se perdem nas descrições minuciosas da natureza empolgante e sugestiva. Alguns avançam através do estudo pormenorizado e sereno do meio social, da cultura e da terra brasileira, com descrições geográficas, etnográficas e psicológicas. E ainda outros salientam a flora e a fauna tropicais, com revelar dilatados conhecimentos de botânica, zoologia e antropologia, memorizando-os.

Entre esses viajantes sisudos e sóbrios, alguns se destacam pelo valor sociológico, cuja preocupação contínua, arguta e objetiva se manifesta não só em descrever fatos, coisas e indivíduos vistos e observados, mas também em pesquisar causas, buscar-lhes o sentido, desvendar-lhes a origem, explicando-a. Neles ressalta o bom senso do equilibrado observador, esclarecido pela idéia precisa de seu notável espírito de cientista a serviço da verdade severa. E a paisagem social da vida brasileira, através de usos e costumes contemporâneos, revive na linguagem clara e no comentário profundo e verdadeiro.

No primeiro quartel do século passado aqui estiveram, de passagem por nossa terra, ilustrados viajantes, cientistas de renome e naturalistas conhecidos. Transitaram pela terra de Nóbrega e de Anchieta, em 1818, sábios como Spix e Martius, cujos espíritos minuciosos e ponderados contribuíram, proficuamente, para projetar muita luz sobre a geografia e a etnografia indígenas, até então quase desconhecidas. Enviados ao Brasil em missão científica pelo grão-duque de Toscana, cerca de quatro anos viajaram pelos nossos sertões, estudando-os. Partem do Rio de Janeiro, passam por São Paulo e Minas Gerais. Galgam e atravessam extensas e altas serranias, descampados e tabuleiros. Embrenham-se, pelo vale de São Francisco, nas regiões selváticas dos rios Doce e Jequitinhonha. Varam os sertões da Bahia. Alcançam o Maranhão através do interior de Pernambuco e de Piauí, depois de atravessarem, a cavalo, quase dois terços do território brasileiro. De São Luís do Maranhão dirigem-se, por mar, a Belém do Pará. Exploram o Amazonas, desde a sua foz até para além de nossas fronteiras. E deixam-nos a monumental “Viagem pelo Brasil” onde os dois grandes naturalistas revelaram, ao mundo, o Brasil; mas principalmente, “Martius lembrou o Brasil, serviu ao Brasil, contou com o Brasil, e não lhe faltou o Brasil”. (Joaquim Manuel de Macedo — Elogio dos sócios mortos — in Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro).

Aqui, em São Paulo, passaram Spix e Martius alguns dias. Descrevem, em rápida síntese, três séculos de história paulista. Falam do espírito de aventura, ainda vivo neste povo: “herança dos antepassados, permanece imperioso nele”. Traçam, ligeiramente, os característicos psicológicos dos paulistas, que permanecem bem vincados. Frisam: “Reflexão e tendência para cogitações sutis são as qualidades atribuídas aos paulistas; também eles e os pernambucanos são, entre os brasileiros, os mais inventivos e ilustrados”. Enaltecem as paulistas com repetir ditado popular da época: “Na Bahia, merecem gabo “eles” e não “elas”; em Pernambuco, “elas” e não “eles”; em São Paulo “elas” e “eles”!” E não fossem eles ótimos representantes da raça germânica, teriam concluído que no Brasil “elas” e “elas” merecem mais gabo que “eles” e “eles”.

No ano seguinte, 1819 por aqui anda Auguste de Saint-Hilaire, botânico forrado de sociólogo. Preciosíssima é a sua bagagem literária referente às viagens por ele feitas ao Brasil. Não se contenta com afirmações e comentários feitos em torno do fato social: observa, estuda, analisa, compara, critica e, finalmente, expõe, em magníficas sínteses, o seu pensamento. Com entusiasmo e calor traça, em linhas vigorosas, o “Quadro Resumido da Província de São Paulo”, em seu livro “Viagem à Província de São Paulo”. (Tradução de Rubens Borba de Morais — edição da Livraria Martins). Dele diz o seu tradutor, no prefácio, resumindo: “Falando das bandeiras, quantas ele esquece e descreve mal (aqui sim, faltam-lhe documentos!). Mas ninguém como ele viu a sua grandeza, ninguém salientou tão brilhantemente o seu esforço sobre-humano. Passou à posteridade a sua frase, referindo-se aos bandeirantes: “Raça de Gigantes”. Depois de fazer, em páginas clarificadas, a descrição da cidade de São Paulo, nesse ano, Saint-Hilaire explica: “Elogiei a polidez e as boas maneiras dos habitantes de São Paulo pertencentes ás classes abastadas; acrescentarei que, na parte oriental de Minas Gerais os agricultores são geralmente mais civilizados do que os da província de que me ocupo neste momento. Na cidade de São Paulo nota-se mais cultura do que na capital de Minas (Ouro Preto).

E explica, a seguir, os motivos que o levam a pensar por essa maneira, com estabelecer corolários baseados na premissa colocada por Martius, nestas palavras: “De província alguma andam por todo o Brasil espalhados tantos colonos como os de procedência paulista!”. Três anos mais tarde Saint-Hilaire aqui esteve. Narra na “Segunda viagem do Rio de Janeiro a Minas Gerais e a São Paulo” (1822) (tradução de Afonso de E. Taunay — Brasiliana — edição da Companhia Editora Nacional) as jornadas feitas através dos territórios fluminense, mineiro e paulista. O consagrado mestre de heurística e historiografia paulista, encerra o prefácio de sua elegante tradução afirmando: “Estamos certos de que o nosso público amante dos assuntos nacionais apreciará realmente este relato honesto e elevado por assim dizer, saído da pena do grande viajante a cuja memória devem os brasileiros muitos motivos de verdadeira gratidão. Sim, porque Saint-Hilaire percorreu, a cavalo, em cinco anos de estada em nossa terra, o Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O sábio francês passa os dias da Semana Santa do ano de 1822, na terra fundada pelo padre Manuel da Nóbrega. Observa as características do modo de pensar da chamada zona do norte de São Paulo, a respeito da mudança de governo e de suas conseqüências. Todavia, não deixa de fazer este judicioso comentário: “Pode-se dizer em abono da verdade que a capitania de São Paulo salvou o Brasil pela energia de sua repulsa às medidas da Corte de Lisboa e à fidelidade que deu provas para com o príncipe (D. Pedro)”. Faz o elogio de Jose Bonifácio de Andrada e Silva e de seu irmão. Salienta, afinal, o quanto devemos aos irmãos Andrada. Acha os brasileiros inteligentes, mas sem cultura: “em geral não estudam ou o fazem sem método”. Anota, em linhas incisivas, as suas observações sobre os paulistanos, nas festas da Páscoa, para depor: “Os homens mais distintos nelas tomam parte pela força do hábito e o povo como a um grande divertimento”. Falta de religiosidade, falta de fé, ou as duas coisas juntas? Nem uma coisa, nem outra. Apenas sintomas característicos de uma época decadente, à espera de próxima renascença. De regresso ao Rio, pela mesma estrada, encontra ao pé de Jacareí, eleitores em caminho de São Paulo. “Estes homens, todos eles dos mais ricos da região, estão em geral bem vestidos; ostenta a maioria aquele ar de presunção e satisfação íntima que, muitas vezes, se nota nos paulistas de certa categoria. Neles entretanto não exclui esta balda a polidez, e a benevolência, não sendo irritante como a arrogância dos espanhóis. Estes parecem reunir à alta opinião que de si têm o desprezo pelos demais humanos”. E assim o grande viajante e naturalista assinala, em traços curtos mas golpeantes, os complexos característicos da formação racial e da cultura dos habitantes das províncias percorridas por ele, pesquisando-as.

Alguns anos mais tarde, em 1825, passa por aqui Hercules Florence. Escreve, em francês, a narrativa de sua viagem, traduzida, muitos anos depois, pelo visconde de Taunay, com o título: “Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas” (edição da Companhia Melhoramentos de São Paulo). No prefácio, o Dr. Afonso de E. Taunay julga a obra: “É documento do mais alto valor para a história das ciências naturais do Brasil...” Dos paulistas Hercules Florence faz este juízo: “Os habitantes de São Paulo, como em geral os de toda a província, são tidos entre os brasileiros por valentes e rancorosos. Com efeito o são comparativamente. Há exemplos de atos atrozes praticados por paulistas para saciarem a sede de vingança, sendo que quase sempre mulheres a causa dessas desordens. Hospitaleiros, francos e amigos dos estrangeiros, são em extremos sóbrios, bebem muito pouco vinho, e mantêm mesa simples, mas agradável”. E assim Hercules Florence confirma as suas ótimas qualidades de observador inteligente, muito embora a modéstia o obrigue a dizer: “Sei que não passo de um escrevinhador sem letras, cujos escritos não hão de ver a luz da publicidade...”.

Agora unamos os pés e damos um salto por cima do tempo, como diria Machado de Assis. Trinta anos decorreram sobre essas apreciações aí referidas. Em 1855 São Paulo é visitada pelo pastor protestante J. C. Fletcher. Fletcher e Kidder andaram pelo Rio de Janeiro, foram ao Paraná, a Santa Catarina, passaram por São Paulo, por Minas Gerais e percorreram todas as províncias do norte, estudando-as. De regresso ao s Estados Unidos escrevem, de colaboração: “Brazil and Brazillians”, traduzido para o nosso idioma por Elias Dolianiti, com notas de Edgard Sussekind de Mendonça (“Brasiliana” — Companhia Editora nacional). Ora, em 26 de junho de 1855, Fletcher escreve de São Paulo a um amigo do Rio, interessante carta. A própria lua treme de frio, enquanto os homens quase tiritam debaixo de espessos capotes. Esquecera o seu no Rio, e verifica assim, quanta falta lhe faz essa peça do vestuário. Está inativo porque não há pressa por parte de ninguém. Nada se faz “de apressado no Brasil”. Generaliza e explica os motivos dessa idéia. Reconhece como tem encontrado pessoas úteis e bondosas. Afirma que qualquer negociante americano ou inglês não teria manifestado tanto interesse por um estrangeiro completamente desconhecido. Narra parte das vicissitudes por que passou, para cá do Cubatão, ao galgar os degraus da serra de Paranapiacaba. De longe, a cidade lhe aparece: “Ainda nas proximidades de São Paulo, contemplando os verdes prados semeados de rebanhos de gado, as casas brancas rodeadas de árvores e, no fundo, as montanhas distantes, parecia estar vendo, como em anos passados, os aspectos semelhantes da Borgúndia, Piemonte e Northumberland”.

Com essa amável e risonha impressão continua o seu caminho pelo Ipiranga afora. E distraído troca o nome do córrego transposto quando escreve: “A noitinha estava chegando quando me enlameei atravessando o Tietê, o primeiro dos afluentes do Prata que eu atravessava; logo depois, subindo, atingi a cidade”. Ora, nem ele podia atravessar o Tietê, nem o velho Anhembi é o primeiro dos afluentes do Prata. Manifesta por São Paulo o mais profundo respeito. Maior “do que por qualquer outra cidade sul-americana que tenha visitado”. Há razões de ordem íntima para ele pensar por essa forma, pois continua: “É maior do que eu pensava, e suas casas, com suas goteiras pendentes, dão-lhe uma aparência não muito diferente das de Vevay, no largo de Genebra. Essas goteiras avançam sobre as ruas, cinco ou seis pés, protegendo os transeuntes da chuva e do sol, e dão ao conjunto um pitoresco suíço”. Em seguida Fletcher esclarece: “Meu sentimento de respeito, todavia, não se originava do tamanho da cidade, nem de seu pitoresco, mas de se notar um ar mais intelectual e menos comercial em seus habitantes do que eu vira em qualquer outra parte do Brasil. Não se ouvia a palavra dinheiro constantemente soando aos ouvidos, como no Rio de Janeiro”. Irrompe a sua observação do fato da cidade abrigar nada mais e “nada menos de quinhentos estudantes de direito na escola que funciona, cujo aspecto realmente evoca as escolas de Harvard e dos estudantes de Heidelberg”. Topa, ao entrar na cidade, com muitos estudantes flanando. E no hotel, diz ele, com certa malicia, jogavam bilhar, davam belas tacadas e deixavam as bolas rolar pelo pano verde e pela noite afora, sem a preocupação de preparar as lições do seguinte, para a Fazenda Ibiacaba, em Limeira.

Assim, os autores de “O Brasil e os Brasileiros” contentam-se em examinar o exterior do ambiente social, através de seu espírito pragmático e objetivo. Porque, “as descrições morfológicas, isto é, as analises de estrutura social (hierarquia das classes, grupos e instituições) são, por isto, de grande importância para os estudos dos fatos de unidade ou de coesão, que varia conforme a densidade das sociedades, sua mobilidade, sua homogeneidade ou heterogeneidade, e o grau e a — Fernando de Azevedo (“Sociologia Educacional”) — E às observações dos autores de “O Brasil e os Brasileiros” escapa o sentido sociológico das análises sociais muito embora represente o esforço honesto de uma contribuição sociográfica desinteressada.

Marginalidade da pintura moderna


Discutir ou debater simples definições de emoção artística ou de sensibilidade emocional, constitui, na verdade, interessante passatempo para intelectos onde predomina a dialética. Polêmicas desse gênero às vezes instruem, outras divertem. No entanto, a emoção artística vale por uma simples manifestação sensorial, ou representa vaga operação da inteligência? Revela-se o belo através da razão, ou em conseqüência de vertical choque físico? Não será muito fácil responder a essas perguntas. E nem o tentamos nestas linhas, cujo propósito é bem outro, como se verá.

Tostói enumera trinta e seis definições do belo artístico. Naturalmente nenhuma o satisfez, porque acresceu aquele número com mais outra, de sua autoria. E de que a melhor era essa, estava ele bem convencido.

Ora, se arte é matéria à qual aderimos pelos nossos sentidos, conforme querem alguns, a tomada de contacto com a arte será pelos sentidos. Por isso há quem veja, na arte moderna, tendências marcantes para explorar a sensibilidade sensorial, em prejuízo da sensibilidade geral ou afetiva de nossas faculdades naturais. Todavia, notam outros que nem todos os pintores modernos se votam, inteiramente, a uma obra. Assim, há os mais ou menos “completos”, como há os mais ou menos “perfeitos”. E daí raramente se encontrar no artista dons supremos e opostos, fundidos num todo, para visualizar os campos como Van Gogh, os montes como Cézanne, o movimento como Degas, a carne como Renoir, para ir além desses nomes bem conhecidos nos meios artísticos e no mundo das belas-artes.

Em torno da arte moderna e do estado atual da pintura, sob os aspectos econômico, social e artístico, as polêmicas não cessam. Do seu ângulo de visão a incidir sobre o campo da arte, cada qual, mais entendido no assunto, emite o seu juízo, de cuja infalibilidade jamais duvida. E a complexidade evidente do problema tenta até os mais tímidos a pontificar sobre a matéria em debate.

Em face desse confusionismo eloqüente, Sérgio Milliet achou de bom alvitre procurar uma solução para o teorema, equacionando-o. Focalizou-o sob o aspecto sociológico, sem retira-lo dos domínios da estética. Para isso recuou, no tempo e no espaço. Procedeu, com método, a revisão dos valores artísticos e dos julgamentos contemporâneos. Remontou à Renascença. E depois desceu através dos séculos, à margem dos ciclos artísticos evoluídos no interior da cultura temporal e não espacial, comentando-os.

Assim como Charles de Baudelaire, considerado o espírito mais justo, mais seguro, mais critico do século, estudou as distâncias sociais existentes entre Delacroix, Ingres, Daumier, Coubert, Corot e pressentiu, em toda a extensão, o valor de Manet, também Sérgio Milliet estudou, com acuro, a evolução da arte como “expressão cultural”, cujo objetivo social de comunicação deve exprimir, “com fidelidade o nosso medo de viver e sentir característico, ou melhor, o modo de sentir e de viver da maioria”. E como a maioria se ressente do caldeamento de culturas várias, embora idênticas em quadras diferentes, apenas por analogia se comprova existir a marginalidade da arte nas épocas de transição, isto é, nos períodos em que as culturas se chocam no tempo e não no espaço.

Como se vê, a tese de Sérgio Milliet não refoge ao terreno histórico, palmilhando-o. Por isso traça a curva temporal da civilização escrita desde o Egito aos nossos dias. Estuda, em sínteses brilhantes, as culturas cíclicas das eras passadas em revista. Induz, dentro do postulado sociológico a que se ateve, “que a arte dos períodos de transição em que a cultura sofre violenta mudança é uma arte marginal”. Vencido o caminho ladeirento da decadência, atravessa o século XVIII, para chegar ao período de aculturação dos dias de hoje. E desdobrado, em largos planejamentos, o panorama geral da evolução da arte, Sérgio Milliet regressa ao pré-renascentismo.

Do alto dessa eminência estuda Cimabue e Giotto. Passa aos holandeses. Segue os geometristas da Renascença Italiana. Analisa-lhes a influência e o prestigio fora da Itália e no século XVIII. Limita-se, nessa época, o pintor à descrição do homem e da natureza. A figura humana constitui o centro e o assunto da obra. Senão como acessório decorativo a paisagem aí intervem. E episódios dos Testamentos servem de motivos pictóricos para Carpaccio e Breughel fazerem minuciosas analises da natureza, nelas estampando o seu maravilhamento.

Demora-se Sérgio Milliet no estudo sintético de El Greco e de Goya, os dois grandes artistas da Espanha. Eles encarnam todos os sentimentos do povo ibérico: o humor triste, o desespero, o gosto do sobrenatural, o apetite do mistério. Produziram obras justapostas. Oferecem ao espírito a medida exata da distância que separa duas formas de expressão cujo objetivo é o mesmo, embora submetidas a disciplinas diferentes. Goya se perde nas espirais do instinto. El Greco se perde na contemplação do duplo encantamento de viver, de sentir-se preso às curvas envolventes do espetáculo entrevisto e entressonhado. E se um adivinha e se deixa levar pelo ritmo instintivo, o outro franqueia dificuldades tangido pelo látego da emoção primitiva.

Mas Sérgio Milliet enfrenta ainda o complexo problema “plástico-pictórico da escola super-realista”. A simples inteligência dos fatos não basta para compreendê-lo. Refoge, portanto, ao entendimento comum. E por isso dirige-se apenas a induviduos de sensibilidade apurada, porque se trata de produto de hipersensíveis, onde intervêm, transpostos para o consciente, os planos do inconsciente.

Assim, o autor de “Marginalidade da Pintura Moderna” chega às próprias conclusões. Com elas atinge o ponto culminante de seu ensaio de estética marginal. Nascido do contacto de duas civilizações diferentes; gestado num período indeciso de aculturação, surge o artista marginal, como produto do tempo e das culturas em choque. Quando ele evolui converte-se “em líder de uma nova cultura, em expoente de uma nova concepção de vida”. E, como dentro de formas variáveis, os ciclos culturais se repetem, segue-se que também o processo marginal se repete, conclui Sérgio Milliet. Ora, em conformidade com esse postulado, apenas os “fauvistas” se tornam grandes nomes dentro do grupo. Contornam o movimento e avançam, embora se interpenetrem da cultura da época. Esse avanço lento se processa através de combates rudes, difíceis e perigosos. Há neles a concepção demorada a aflorar de uma sensação profunda produzida no recôndito da alma. E daí Jules Laforgue dizer alhures: “Toutes lês tentatives de l´art viennent de l´inconscient qui veut s´exprimer”.

Por isso, o clima da arte se cinde em dois grupos distintos. De um lado há o espetáculo de uma arte pessoal, espontânea, reflexo de bom humor natural, da exaltação do interior, do “eu”, em plena euforia. Visa o outro grupo a expressão moral: apresenta a mensagem íntima e o conhecimento de todas as coisas; procura o esquecimento do “eu”, oculto com ardor sob a camada de certa serenidade, polvilhada de frieza. Assim, duas concepções de pintura se opõem através dos tempos, dentro dos ciclos culturais. Desenvolvem-se numa atmosfera parecida com os tempos heróicos. Entre o espírito público, tímido sempre, e a arte oficial consagrada, desenrola-se a luta subterrânea. Daí existir nas belas-artes a Itália intelectual, prestigiosa e primitiva; a Holanda realista, mística e visionaria; a Espanha triste, dolorosa e apaixonada; a França cortês, ingênua e campônia; a Alemanha cruel, trágica e sonhadora; a Inglaterra impressionista, grave e solitária. Donde o que nos antigos era fantasia ou exuberância da imaginação, aparece nos modernos marginais com vontade aplicada, como expressão do instinto e do inconsciente. E diante desse processo psico-sociológico, Sérgio Milliet entrepara: estuda-o, analisa-o, esclarece-lhe os claros-escuros, as coordenadas sociais, para torná-lo acessível aos leigos, entre os quais nos colocamos.

De resto, Sérgio Milliet penetra, com lucidez, na complexidade tentadora do problema. Associa a decadência da arte à decadência cultural do público, surgidas ambas numa pausa do tempo, como um compasso de espera, entre duas civilizações distintas. Todavia, revelamos sempre a nossa incapacidade intelectual para ver, nos dias que correm, apenas o conjunto panorâmico dos acontecimentos em marcha para uma civilização em mudança. E daí ficamos presos, seduzidos, maravilhados pelos reflexos coloridos e fugitivos das ninféias movediças à flor das lagoas, lisas e luminosas.

Carta de louvores ao sol e aos campos


Hás de saber, para tua ciência e governo, das múltiplas mudanças por que têm passado o mundo e a sociedade desde que daqui abalaste. Vivemos, hoje, numa quadra muito diferente daquela, tua conhecida, que deixaste, ao fechar a última centúria. Há, entre o século XIX e o século XX, tremendo e tenebroso abismo. Para enchê-lo não bastam, como era de prever, todas as vãs filosofias humanas. E hoje, o fenômeno grave e característico da época é a divergência na uniformidade, à espera de quem lhe estude e lhe situe o clima sociológico.

Para explicar-te algo de agora, necessário é que saibas, antes de mais nada, como se vive, entre roncos de motores, no ar, no mar e na terra, nestes dias grisalhos. Predomina o regime da maquina e de seu forte resfolegar incessante. Chovem dos céus, outrora tão serenos, bombas destruidoras, em vez de inofensivas estrelas cadentes. Estas despencam, sobre a gente, a fuzilaria faulhante e assassina das metralhadoras andejas pelos espaços conturbados. E pipocam as explosões secas e estraçalhantes.

Sobre a terra corre veículo, teu desconhecido. Adicionado pela força propulsora do motor, esse veículo, denominado automóvel, roda, com velocidade, pelas ruas, estradas, espaços e distâncias engulindo. Ora, ter automóvel e não possuir casa própria para morar, eis o sintoma social destes dias trepidantes. Porque esse carro justifica a evasão ao estreito e angustiado apartamento onde a gente se encafua por medida econômica. Daí tal meio de transporte representar o complemento da gaiola moderna, construída em séries, nos prédios de muitos andares, onde se debatem almas de bípedes humanos, ansiosas de espaço e de movimento. Bem complicado, como vês, o teorema da vida atual. E, no entanto, essa complexidade simplifica-se neste binômio: apartamento e automóvel.

Não sei como viverias hoje, neste universo atribulado. As comunidades não te agradavam muito. Porque morar num prédio de apartamentos significa ingressar no íntimo da sociedade apartamentista. Vive-se aí paredes-meias, quase portas a dentro, com a vizinhança. Explica-se, por essa forma realista, aquele ditado teu conhecido: As paredes têm ouvidos. Ouvidos e olhos, está visto. Todos vivem de orelha em pé e vista alerta. Há espias de sentinela em todas as passagens. Daí as comunidades sociais te horrorizarem. Se para dominicano eras muito magro, para trapista muito soberbo, muito palrador para jesuíta e para beneditino muito ignorante. Tantos muitos para quem apreciava o pouco, serão demasiado, não achas? E com isso estou a crer que viverias distante de teu próximo, embora vivesses no seio da sociedade apartamentista.

Mas regressemos ao automóvel onde o deixamos. Veículo ideal para todos os transportes corre ao sabor das estradas e das posses. Assusta pedestres e galinhas. Levanta nuvens de poeira. E destruiu, é verdade, patriarcal e familiar conceito inglês, já universalizado: “home, sweet home” — lar, doce lar — para substituí-lo por outro, em conformidade com a existência atual, apenas com perder o L inicial: ar, doce ar. Porque, é bom que saibas, o automóvel nos leva a mudar de ares, a tomar ares e a novos ares. Muito contribuiu, para isso, o gênio industrial dos americanos do norte. Reais e vantajosos são os benefícios com que nos felicita o automóvel, apesar de infelicidades nos proporcionar, certas vezes. Contudo, se o fogo queima, não se segue que seja preciso apagá-lo definitivamente. Conservar o fogo é conservar a vida. E nem paradoxalmente provarás o contrário.

Assim, podemos cruzar hoje todos os quadrantes da urbe e do orbe, com rapidez, conforto e comodidade. Viajar pelas estradas afora é regalar a vista cansada; é dar aos olhos e à alma a bendita sensação do alívio e da serenidade, com o ver paisagens e planuras cobertas de verde, um verde luminoso, alegre e repousante. Demais as estradas civilizam. Aproximam povos. Encurtam distâncias. Facilitam as guerras. Enlaçam amizades. E proporcionam a vida ao ar livre, tão necessária à nossa triste existência de homens da cidade.

Dizer que tu, nesse fim do século passado, punhas longo e preguiçoso dia, para ires de tipóia, sege ou calhambeque, de Lisboa a Sintra. Se fosse hoje, quando sentisses saudades do verde e quisesses pastar, ou espolinhar-te na relva, como um intelectual em férias, o automóvel levar-te-ia, bem depressa, à tranqüilidade loira dos campos onde se vive mais à saúde. Sentirias então, homem da cidade, como é doce deslizar agora pelas estradas macias de Portugal. A mim não me é dado percorrer estes caminhos fáceis, onde o sol bate de leve e “roça-nos o rosto como uma caricia alada”, conforme disse o teu imortal criador, em seu estilo faiscante, porque hoje, o velho Atlântico, cuja função amável consiste em unir Portugal ao Brasil, anda muito alvoroçado. Demais fiz outrora, vegetativamente, a minha primeira viagem transatlântica, num simples cromossomo. E. se agora viajasses pelas estradas novas do velho Portugal, havias de bendizer, com ternura e carinho, esses construtores de progresso e da civilização, que tanto ironizaste em sátiras agudas e acerbas. Certo havias de penitenciar-te de tais heresias passadas. E entoarias, com sôfrego entusiasmo, ditirambos floridos ao motor e a aqueles que o inventaram. Porque a máquina mereceria de seu talento, flamejante máquina, embora esbravejasses, ao baixar a eloqüência, contra os fabricantes que vendem o carro com o tanque vazio; e, para fazê-lo rodar é preciso encher-lhe as entranhas de ferro com o precioso combustível — a gasolina. Pprém, a gasolina faz-se rara. Volatiza-se com facilidade. Racionada como anda, apenas uma classe privilegiada consegue obtê-la, às gotas, nos postos onde ela se encontra, muito alcoolizada. Por isso mesmo, o nosso digno semelhante, — o homem — já inventou o sucedâneo da gasolina. Não te admires do bárbaro termo. O bípede implume do filósofo ateniense empenhado como vive em arrasar a própria espécie, desandou em procurar o sucedâneo da criatura humana. Há de surgir daí qualquer coisa de sintético, de horrivelmente sintético, para delicia dos sábios e dos armamentistas. Ora, o sucedaneo da gasolina chama-se gasogênio. Não satisfaz mas serve. E para entrarmos em contacto com os salutíferos encantos da natureza, percalços dessa ordem compensam...

Também o suave oratoriano, padre Manuel Bernardes, amigo das aves, dos bichos e dos vegetais, se vivesse nestes rudes e ofegantes momentos, teria de refazer e aumentar o capítulo da “Nova Floresta”, referente ao “Luxo e enfeite nas mulheres”, com acrescentar-lhe: e nos automóveis. Modificaria ainda a frase de Plauto: “Navis et mulier nunquam satis ornatum”, que em nosso linguajar é: “A nau e a mulher nunca se dão por bastante enfeitadas”. O clássico mudaria nau para automóvel e tudo estava certo. E assim essa permuta de palavras em nada prejudicaria o pensamento contido na frase alterada.

Demais, nau e mulher, com serem do mesmo sexo, sabem equilibrar-se no seu elemento. Mas automóvel e mulher, de sexos diferentes, se ajustam, se compreendem e se completam. Ainda neste mesmo capítulo do “Luxo e enfeite nas mulheres” padre Manuel Bernardes acrescenta: “...da região de São Paulo, na América (a nau) leva ouro para o luxo, galas e adereços femininos”. Isso naquele já distante século XVII. Hoje, de São Paulo e do Brasil roda muito ouro para além do canal de Panamá. Com ele adquiríamos automóveis, óleos, peças, pneus, acessórios, e alguma gasolina. Não te demore o espanto ao leres essa nomenclatura do movimento. Caracteriza e define uma civilização em mudança. Por isso mesmo não precisas decorar esses nomes. Assim, se te perguntarem algo a esse respeito poderás disfarçar a tua ignorância, com a resposta do cigano em condições idênticas. Convém recordá-la nestas linhas. José Ortega y Gasset narra o caso em “La Rebelion de las Massas”. Escuta-o: “El gitano se fué a confesar: pero el cura, precavido, comenzó por perguntarle si sabia los mandamientos de la ley de Diós. A lo que el gitano respondió: —Misté, padre, yo loh iba a prendé; pero he oído un runrun de que loh iban a quitá”.

No entanto, repara como o automóvel presta serviços. Refestelados em macias almofadas o homem e a mulher voam pelas estradas afora. Ei-los como admiram a beleza dos panoramas e sorvem o ar cheio de sol e de perfumes. Se esse casal não tivesse o providencial veículo, jamais poderia escapar às aperturas do cochicholo citadino, onde mingua o ar e a falta de claridade. Criaturas urbanísticas bem precisamos de oxigênio das campinas, porque nossos pulmões andam cheios de fuligem e de poeira condensadas nos centros populosos. E eles reclamam outra atmosfera, com bastante luz e bastante mato. Ares lavados, cheiro de vegetais seivosos, aromas de resinas partidas tonificam, revigoram e vitalizam o organismo combalido. Se as atuais condições de vida nos obrigam a viver integrados na sociedade apartamentista, em beneficio da saúde precisamos, nos dias de descanso, fugir das esquinas e praças públicas. E dias e noites não podemos passar enclausurados entre as quatro paredes.

Vivemos, como vês, uma existência apressada, febril e nervosa. Precisamos restaurar, de tempos a tempos, o equilíbrio e a harmonia de nossas atividades fisiológicas e psicológicas, meio desajustadas. E o desgaste nervoso dia a dia vai aumentando.

Ora, o verde atua beneficamente na vista, na alma e no organismo, como o azoto dos alimentos e o oxigênio do ar se conjugam para se integrarem em nosso corpo. Tinhas razão quando, cheio de saudades, procuravas o campo. Pastar é uma necessidade higiênica. Bons ares, boa alimentação e boa água restauram as energias consumidas e reconstroem elementos destruídos pelos desequilíbrios do metabolismo. E nós, homens da cidade, temos necessidade imperativa disso e de silêncio. De silêncio, por algum tempo, para repousar os nervos batidos, esfrangalhados e rotos pelas inquietações de todos os instantes.

De resto, uma vez por outra, a gente precisa entrar em férias completas e passá-las no isolamento sossegado de qualquer vilório esquecido à beira de uma estrada: ou no sereno recolhimento de uma fazenda longínqua; ou, ainda, no sadio silêncio de uma praia, tranqüila e repousante. Para isso, faz-se necessário reagir e resolver, decididamente: — Bem, vou conversar com as árvores, ou vou procurar a companhia das onda marinhas. E mesmo assim, com firme resolução, seria melhor concluir: — Estou com saudades do verde; vou pastar para viver com saúde.