História e Lenda


Tito Lívio Ferreira

 


Thomas Paine — cidadão do mundo


Nascido em Thetford, condado de Norfolk, na Inglaterra, Thomas Paine se encontra, certo dia, em Londres, com trinta e sete anos de idade, sem profissão e sem dinheiro. Tentara, na mocidade, vários misteres. A nenhum se dedicara. Casara-se duas vezes. Renunciara, por fim, ao matrimônio, para se votar, inteiramente, à causa da humanidade. Topa, às margens do Tâmisa, com Benjamim Franklin. Este aconselha Paine a procurar, além-Atlântico, no mundo novo, a sorte arisca e negaceante. Desse encontro se decide o futuro de quem andava à procura de seu destino. E o inglês ruma para os Estados Unidos.

Na América ei-lo, desde logo, a colaborar na revista “Pensylvania Magazine”, com o ordenado anual de cinqüenta libras. Em vésperas de guerra civil, faz-se advogado ardoroso da abolição da escravatura, da independência da mulher, da proteção aos animais e de todas as causas justas e humanitárias. Toma parte ativa na campanha pela autonomia política dos Estados Unidos. Escreve, sem assinar, o famoso panfleto “common Sense”, contra a monarquia inglesa. Esse opúsculo se torna, imediatamente, a “Bíblia política” do povo americano. E a sua influência sobre os espíritos ávidos e ardentes de liberdade vai crescendo. Decorridos onze anos dedicados ao jornalismo e às lutas da independência, Paine cuida agora de construir uma ponte na Pensylvania, quando resolve ir à França consultar engenheiros franceses sobre o assunto. Atravessa de novo o Atlântico levado pelo anseio de regressar logo da Europa. Todavia, permanece quinze anos no velho mundo, onde assiste os acontecimentos mais importantes da época, ora como espectador, ora como ator destacado. Durante esse tempo consegue adquirir renome mundial, para se tornar objeto de ódio universal. (Hesketh Pearson “Tom Paine, Friend of Mankind”). E, no entanto Paine tinha por divisa: “O mundo é a minha pátria e a minha religião é o bem”.

Encontra-se em Paris com Thomas Jefferson e La Fayette, velhos amigos e companheiros de guerras da independência americana. Trava relações com Danton, Condorcet e outros próceres da Revolução Francesa. Jefferson regressa aos Estados Unidos. No dia seguinte à tomada da Bastilha recebe de La Fayette, para entregar a George Washington, a chave da legendária prisão, “como símbolo dos princípios implantados no novo mundo e que derrubaram a execrável fortaleza”. Thomas Paine desempenha a missão com notável simplicidade de espírito e relevante incompreensão dos acontecimentos futuros. E sugere a Washington a idéia de felicitar o rei e a rainha de França, “pelo exemplo feliz que acabava, de dar à Europa”.

Por esse tempo Burke publicara em Londres as “Reflexões sobre a Revolução Francesa”. O autor de “Common Sense” lhe responde com “The Rights of Man”, onde faz a apologia dos revolucionários e de sua obra. Descreve, nesse livro, as mudanças sociais ocorridas na França.

Deveriam, no seu entender, transpor, o canal da Mancha e converterem-se em realidade na Inglaterra. Paine raciocina. Olha a situação da Grã-Bretanha. Seus pensamentos são, no dizer de M. Pearson, tão verdadeiros hoje, como irritantes o eram naquele tempo. Uma de suas assertivas — “a aristocracia é uma espécie de cogumelo que nasce da corrupção da sociedade”, — causou, nem era para menos, grande escândalo em toda a nação inglesa. E daí o “slogan” lançado por ele: “The Nobility, or rather No-ability”.

Surpreendente foi o êxito de “The Rights of Man”, nos Estados Unidos. Venderam-se, em algumas semanas, para mais de cinqüenta mil exemplares dessa obra. Thomas Paine regressa à Europa. Ocupa-se, em Paris, da tradução francesa da resposta a Burke. Certa manhã recebe a visita de La Faytte. Vem anunciar-lhe a fuga dos soberanos confiados à sua guarda e preso nas Tulherias.

— Fugiram os pássaros! exclama o general. Na sua linguagem os pássaros eram Luiz XVI e Maria Antonieta.

— Está bem! adiantou Paine muito admirado. E acrescentou: — Espero que nada fará para apanhá-los...

Tão grande foi o seu espanto ao assistir à volta dos reis franceses, detidos em Varennes, que esquece de colocar no chapéu a “cocarde” revolucionária. E por isso, a multidão o olha com rancor, excitada e sedenta de vingança, gritando: “Aristocrate! A la lanterne”.

Crescem com ele os ódios, na Grã-Bretanha. Publica, ainda em Paris, a segunda parte de “Rights of Man”, com dedicatória a La Fayette. No entanto, os asseclas de Pitt impedem o editor londrino de dar a lume a obra do panfletário sedicioso, porque Paine trata o rei Georges III de “His Madjesty”. Refere-se, com a primeira sílaba, “Mad”, à demência do soberano. E os leais súditos de sua majestade queimam-lhe as obras, em autos de fé flamejantes.

Pelas desassombradas atitudes de Thomas Paine a França tributa-lhe admiração e respeito. Confere-lhe a assembléia o título de cidadão francês. Eleito deputado à Convenção por três Departamentos, escrevem-lhe os delegados de nove comunas: “Venez, amie du peuple, grossir le nombre des patriotes dans l ´assemblée qui décidira du destin d´um grand peuple et peut-être de l´humanité entière. L´heureuse époque que vous avez annoncée aux nations est arrivée. Venez, ne décevez pas notre espoir”. E esse estilo enfático delicia o idealista entusiasta.

Declarado fora da lei pela Inglaterra a França o recebe de braços abertos. Seus companheiros de luta mostram não possuir o mesmo espírito de disciplina dos camaradas republicanos dos Estados Unidos. Emudecido pelo terror vermelho dirige ao presidente da Assembléia sentimental pedido escrito, quando os parisienses exigem a pena de morte para Luiz Capeto. E termina a carta dizendo: “Si les Français tuent leur roi, ce sera le signal de mon depart, car je ne resterai aps au milieu de gens aussi sanguinaires”.

Defronta Robespierre. Opõe razões humanitárias às razões de ordem política apresentadas pelo incorruptível Maximiliano. Esse generoso pedido para salvar o rei condenado sem apelo nem agravo, concentra-se nestas palavras: “A França foi a primeira nação européia a abolir a realeza, seja também a primeira a abolir a pena de morte”. Votada unanimemente a sentença de morte, Paine sobre à tribuna para declarar: “Lamento sinceramente a deliberação extrema tomada pelos convencionais”...Marat corta-lhe a frase com a palavra sarcástica e afiada: “Declaro que Thomas Paine é incompetente para apreciar este caso. Este espírito amesquinhado pelos princípios estreitos dos “quakers” não possui largueza de vistas para condenar homens à morte...”

Termina assim o idílio de Thomas Paine com a Revolução Francesa. Suspeito, incorre na antipatia de Morris, ministro dos Estados Unidos na França. A dupla animosidade, partilhada entre Robespierre e Morris, contra ele, o leva ao cárcere, quando, por suprema ironia, acabava de publicar novo livro: “A Idade da Razão”. Por milagre escapa à guilhotina com a queda imprevista do Incorruptível, e, conseqüentemente, com o desaparecimento do terror vermelho. E James Monroe, novo ministro dos Estados Unidos consegue alcançar-lhe a liberdade após dez meses de encarceramento.

Doente, cansado, envelhecido, Paine rola agora de desilusão em desilusão, ora com os bonapartistas, ora com os jacobinos. Entra o século dezenove. De novo ei-lo agora na América. Continua o combate, na “república dos seus sonhos”. Agora não mais pela independência da pátria, mas para a obtenção de posições e riquezas. Retira-se para a sua velha residência de Bordentown, com a “cabeça cheia de planos e invenções mecânicas”. A nova geração o desconhece. Ignora-lhe já os serviços prestados ao país, nas lutas pela liberdade do solo americano. Por isso não lhe tomam o voto nas eleições de New-Rochelle, sob o pretexto de que lhe fora cassada a cidadania americana. Paine recorre a Thomas Jefferson, companheiro e amigo de outrora, nos campos de batalha e de ideais. Nada pode o presidente fazer pelo solicitante. De fato, Paine agora está provado de seus direitos cívicos, na terra da Liberdade. O velho panfletário mergulha, em silêncio, na humilhação, no desespero e na amargura. E morre, pouco depois, tendo sido enterrado na sua fazenda, em New-Rochelle.

Dez anos mais tarde o seu compatriota e mais acirrado inimigo, William Cobett, publicista defensor das teorias liberais, quis reparar os erros cometidos noutros tempos, quando em terrenos opostos polemizaram. Com sincera e cândida ingenuidade haviam combatido. Reconciliados agora pela morte e pelo tempo, Cobbet vai a New-Rochelle e transporta para Liverpool as cinzas de Thomas Paine, porque o autor de “The Rights of Man” morrera em terra estranha. Isso pareceu absurdo ao espírito mercantilizado e materialista dos indivíduos da centúria passada. Mais absurdo parecerá aos homens do século vinte.

E para os homens do século doze não o era, nem o será para os dos séculos trinta e quarenta, (G. K. Chesterton. “The life of William Cobett”).

Nem assim descansa o extinto lutador recolhido ao solo da terra natal, porque M. Pearson informa: “Algum tempo depois os restos mortais de Thomas Paine desapareceram do cemitério de Liverpool onde estavam. E agora, não pertencem, como ele mesmo, a nação alguma”.

Ora, o cidadão do mundo, como o designam os ingleses, pertence à Humanidade, no sentido abstrato empregado em fins do século dezenove. Três países devem guardar-lhe a lembrança: a Inglaterra, terra natal; os Estados Unidos, terra adotiva e a França que lhe deu a cidadania. No dizer de George Washington suas obras exerceram profunda influência no povo americano, pelas doutrinas aí pregadas com decisão, firmeza e confiança, em prol da Liberdade da América. Napoleão achava que uma estátua de ouro lhe devia ser levantada em todas as cidades do Universo. Daí erguer-se hoje, em Paris, uma estátua de bronze, obra do escultor americano Borglum, em cuja base está escrito: “Thomas Paine (1737-1809) inglês de nascimento, cidadão Francês por decreto e Americano por adoção”. O monumento representa o homem, em pleno uso e gozo de seus direitos de cidadania francesa, no momento em que, deputado à Convenção, vota contra a pena de morte imposta a Luís XVI, pela Assembléia.

O idealismo político de Thomas Paine faz, por certo, sorrir os realistas de todos os tempos. No entanto, nele havia qualquer coisa de profético. Revela-o quando combatera os seus patrícios, nas guerras da independência, ao lado dos americanos. Chefe das tropas inglesas, lord Howe prometera anistiar os rebeldes que reconhecessem a autoridade real de George III. Entre os dois Georges, o da Inglaterra e o da América do Norte, Paine não hesita: prefere George Washington. Responde, por isso, ao apelo, e à promessa de lord Howe, com o destemeroso panfleto: “Crisis, lido em todos os acampamentos, em todas as cidades, vilas, aldeias e fazendas. Nesse opúsculo célebre, Thomas Paine escreveu esta frase prenunciadora do futuro reservado ao povo americano: “Os Estados Unidos serão ainda um nome famoso no mundo e na história, tanto quanto o é o reino da Grã-Bretanha”. E nesse ponto o inglês, abstraído completamente do presente, vê os americanos em marcha batida para o futuro, sob a mirada luminosa das estrelas viajeiras.


Uma autobiografia inédita de Gonçalves Dias


Há, por aí, entre dispersos e esparsos, guardados em arquivos públicos e particulares grande cópia de documentos ainda, por falta de investigadores ou de curiosos das coisas perdidas, cobertas pela poeira das traças e dos anos. Ao revolver papelada antiga surgem, de quando em vez, aos olhos atônitos dos pesquisadores, documentos interessantes, descobertos por estudioso ou intelectual sôfrego de ver “algo nuevo”, num mundo grisalho e circunscrito pelas coisas bem antigas. Bloqueados pelos problemas cotidianos, os espíritos utilitários miram, com perfeita displicência, o documento e cogitam. Não lhes descobrem valor algum. E nem se dignam avaliá-los pois continuam cada vez mais jungidos às necessidades materiais da existência.

No entanto, voltados para o survival das nobres manifestações espirituais, os intelectuais se deliciam com o achado, comentando-o. Deliciam-se porque não vivem apenas o momento presente, e porque se sabem capazes de compreender e interpretar as mensagens da inteligência, dirigidas a todos os homens e a todos os tempos. E porque sabem ainda que o espírito vivifica o passado e dá, às almas, na angústia de um minuto, a sensação da presença da eternidade.

Por isso mesmo os pacientes pesquisadores da história e da literatura continuam. Quantas vezes diante de páginas rendilhadas pelo esfaimado bicho do papel, desfeitas pela incúria e pela ignorância, não lhes ocorre exclamar como Bocaccio ao ver manuscritos preciosos, códices raros, mutilados, rotos e ilegíveis: — E agora, escritores, quebrai a cabeça a fazer livros! Nem assim desanimam. Devassam documentários inéditos e inúteis. Inéditos e inúteis porque dormem, secretamente, sob camadas finas e serenas de poeira preciosa. Para descobri-los os estudiosos se afoitam e enfrentam dificuldades. Impelidos pelo vivo anseio de cortar debates, esclarecer controvérsias e dirimir dúvidas, andejam por bibliotecas e arquivos. E dos resultados nesses trabalhos, todos se beneficiam.

Ora, muitas surpresas estão reservadas aos pesquisadores empenhados em sacudir papéis velhos, esquecidos quase sempre e extraviados muitas vezes. Entre esses investigadores se inclui a doutora Maria Celeste Ferreira, (Madre Maria Zélia) da ordem das Cônegas de Santo Agostinho, educadoras conhecidas em nossa terra, pelos relevantes serviços prestados à formação cultural e religiosa da juventude feminina brasileira. Assim, em sua tese de doutorado, “O indianismo na literatura romântica brasileira”, defendida no Instituto Superior de Filosofia, Ciências e Letras “Sedes Sapientae” (Faculdade Católica Feminina) perante os drs. Alexandre Correia, Afonso d´E. Taunay, Plínio Ayrosa, Mota Filho e Sousa Lima, a doutora Maria Celeste Ferreira (Madre Maria Zélia) inseriu uma autobiografia inédita de Gonçalves Dias, interessante documento para os estudiosos de literatura e de história, porque esclarece pontos duvidosos da vida do grande poeta maranhense. Divulgamos aqui, “data vênia”, esse documento por gentileza da talentosa pesquisadora.

Destaca, a autora, em sua tese, a personalidade literária de Gonçalves Dias, cuja poesia, rica de sentimentos e palpitante de gênio, influência notável exerceu na literatura nacional. Porque, se o primeiro ciclo indianista em nossa terra, denominado clássico, foi iniciado pelos vanguardeiros, Santa Rita Durão e Basílio da Gama; o segundo ciclo, já em pleno romantismo teve, em Gonçalves Dias, o criador e poeta máximo desse movimento literário. O mais indianista de nossos escritores está situado entre os românticos, pela comovida ternura e pela suavidade lírica de sua poesia, bem brasileira, bem característica da nossa terra e de nossa gente, sem perder a sinergia de universalidade nela vibrante. Daí constituir o mais complexo e o mais completo dos poetas nacionais. “A sua obra tem a cópia, a variedade, a perfeição, o acabado que nenhuma outra na nossa literatura tem” (José Veríssimo — “Estudos de Literatura Brasileira” — segunda série). Repassada sempre de emoção e beleza, a poesia do alto poeta maranhense pulsa no ritmo dos sentimentos comuns da humanidade. Por isso, desde logo conquistou a alma estuante do povo e a alma encantadora das mulheres. E porque soube sentir, compreender e interpretar a poesia nacional, em versos luminosos e perfeitos, o Brasil inteiro o consagrou, outorgando-lhe os foros de legítimo representante da alma brasileira.

De sua biografia falam as histórias da literatura nacional. Em quase todas se afirma que o poeta deixou, ainda criança, a terra natal, onde iniciara os estudos de latim, com o mestre-régio da localidade. Com o pai rumou para a capital da província. Daí seguiram para Portugal: o adolescente em busca de saber e o adulto de saúde. Este morreu, pouco tempo depois, na terra lusitana. E aquele ficou órfão em meio estranho. Ora, a doutora Maria Celeste Ferreira (Madre Maria Zélia) escusa-se, em seu trabalho ainda inédito, embora escrito há cerca de um ano, por não adentrar nas minúcias biográficas do escritor, cujo nome irradiou por todos os quadrantes da pátria. “No entanto — informa— não quero privar o leitor duma pequena nota bio-bibliográfica que o próprio poeta nos ministra num manuscrito que tive a ventura de encontrar entre os seus papéis na Biblioteca Nacional.

(Apontamentos autógrafos de Gonçalves Dias — Manuscrito I-33,5,142). Vejamos um extrato: “...Nasci a 10 de agosto desse ano (1832). Ali (Caxias) estudei latim, francês e filosofia; mas para concluir esses estudos e começar novos acompanhei em 1837 meu pai que vinha para a Europa tratar de sua saúde. Meu pai faleceu no Maranhão (sic) e eu voltei para Caxias.

Em 1838 saí novamente de minha Província, cheguei a Lisboa e segui para a Universidade de Coimbra onde freqüentei o curso de jurisprudência. Enquanto estudante apliquei-me à literatura e ao estudo de línguas vivas e continuei apesar da revolução de Caxias de 1839, que me deixou sem recursos em país estrangeiro, tendo apenas 16 anos incompletos.

A minha primeira poesia foi dedicada à coroação do atual imperador e recitada em uma festa que deram os estudantes brasileiros para celebrar aquele acontecimento. Tendo em 1844 tomado o grau de Bacharel em Jurisprudência que me habitava (sic) para a profissão de advogado conhecendo o espanhol, francês, italiano, inglês e alemão, voltei para o Brasil em 1854, depois de correr grande parte de Portugal. Fui para Caxias e publiquei ainda nesse ano algumas poesias que despertaram atenção: “É a imaginação de Lamartine com o estilo de Felinto Eliseo”, escreveu um crítico.

Fui para o Rio em 1846, em cujo ano apareceu o primeiro volume de minhas poesias, “Primeiros Cantos”. Algum tempo se passou sem que nenhum jornal falasse desse volume que, apesar de seus defeitos, ia causar uma espécie de revolução na poesia nacional. Depois acordaram ao mesmo tempo, e o autor dos “Primeiros Cantos” se viu exaltado acima do merecimento. O mais conceituado dos escritores portugueses — Alexandre Herculano — falou desse volume com expressões nem lisonjeiras — e esse artigo causou muita impressão em Portugal e no Brasil. Mas já nesse tempo o povo tinha adotado o poeta, repetindo e cantando os seus versos em todos os ângulos do Brasil.

Em 1848 — um segundo volume de poesias, “Segundos Cantos”, e fui nomeado professor de História do Brasil no Imperial Colégio Pedro II. Em 1850 o 3º volume de poesias. “Últimos Cantos”. Nesse ano fui em uma comissão do Governo às províncias do Norte, que assim tive ocasião de visitar. Pouco tempo depois de ter voltado dessa viagem fui nomeado oficial da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros.

Tenho me aplicado, com afinco aos estudos históricos, e apresentado algumas memórias ao Instituto Histórico, sendo até agora a principal delas a que se intitula “Brasil e Oceania”, comparação dos caracteres físicos, morais e intelectuais dos indígenas destas duas partes do mundo, considerados no tempo da descoberta, para deduzir desta comparação, qual delas oferecia mais possibilidades à civilização”.

Daí se conclui que o pai do poeta faleceu no Maranhão, antes de embarcar para Portugal, e não além-Atlântico, segundo se encontra nos manuais de literatura. Aliás, Sotero dos Reis, em seu “Curso de literatura brasileira e portuguesa” acompanha o poeta, nesse ponto, sem contudo citar a fonte de sua assertiva. E daí o valor do documento ora publicado: vem confirmar a notícia biográfica de Sotero dos Reis e corrigir autores outros, por certo desconhecedores da autobiografia do escritor maranhense.

Do inglês ao americano


Verifica-se, entre ingleses e americanos, a mesma divergência notada entre brasileiros e portugueses, no tocante ao idioma falado ou escrito nesses países. Há quem veja, com a melhor das intenções, uma nova língua em nossa terra, em tudo muito diferente do velho idioma lusíada. Partidários do linguajar brasileiro até se mostram dispostos a outorgar-lhes foros de autonomia idiomática. E com isso muito se aborrecem os puristas da língua, defendendo-a.

Ora, esse fenômeno lingüístico-social surpreende também os filólogos anglo-saxões, quando estudam o linguajar falado nos Estados Unidos e o comparam com o idioma da Inglaterra. Dois dialetos formam hoje a língua inglesa: o britânico e o americano. Ambos se vão distanciando. Daí exigirem dicionário diferente, com verbetes próprios, para assinalar palavras e pronúncias bem diferenciadas. Porque os americanos dos Estados Unidos acham afetada a pronúncia inglesa e enxergam muito artificialismo no inglês literário. E por isso adotam, para uso interno, sistema ortográfico algo diferente do usado na Grã-Bretanha: menos complicado e mais fonético.

Assim quando o inglês de Londres depara com palavras meio estropiadas como “color”, “honor” e “favor”, em vez de “colour”, “honour” e “favour” tem a certeza de que foram impressas nos Estados Unidos. Igualmente reconhece, pela prosódia, o americano. Mesmo se ele tiver nascido e estudado em Boston, onde o falar é castigado, o característico se revela. Porque o “r” e a articulação das vogais adquirem sonoridades estranhas. De mais a mais o idioma das classes cultivadas inglesas não é conhecido nas camadas sociais americanas. Formigam nestas os neologismos, as construções sintáticas novas e as frases idiomáticas ignoradas naquelas. E formas verbais, uso de preposições, confusão natural no emprego dos pronomes, modismos, tudo indica ao habitante da Inglaterra o baixo índice de consciência lingüística entre os americanos.

No domínio do vocabulário o linguajar americano denota força, audácia e fantasia. Lembra às vezes, o inglês elisabetano. Rebelde a toda e qualquer regra purista, o dialeto americano se enriqueceu consideravelmente nestes derradeiros séculos de palavras, expressões e construções desconhecidas por completo do “King´s English”. Muitas se apresentam bem dispostas. Substituem, com vantagens o termo usado além-Atlântico. O “side-walk” americano é mais expressivo que o inglês “pavement”. Também o velho “chemist” da Grã-Bretanha reverencia o jovem “drugist” da América. “Flat” em Londres corresponde ao “apartment” em Nova York. Todavia, aquele está no primeiro andar e este situa-se no segundo pavimento.

Assim, quando o inglês diz que vai fazer “directly” qualquer coisa, realiza imediatamente o seu pensamento. Da mesma forma o americano dirá “directly” para fazer outra coisa. Contudo, porá tempo em meio. Mediata será a ação, isto é, mais demorada. “Homely” soa bem aos ouvidos de qualquer inglesa, lisonjeando-a. Ela compreende o sentido exato da palavra, porque lhe fala do encanto feminino, feito de simplicidade e doçura. Todavia, a americana sentir-se-ia ofendida ao ouvir o vocábulo. O cumprimento soaria ao contrário. E “homely” lhe diria que ela parece vulgar e feia.

Esse desenvolvimento lingüístico, essa marcha dinâmica do linguajar americano resulta, quase sempre de ultrajes feitos à gramática, ao bom gosto e à pronúncia. Com isso, entre os dois países, as tendências modificadoras da língua se vão acentuando. Se o idioma inglês é profundamente flexível, o dialeto americano não se flexiona da mesma forma. Isto se nota, principalmente, no modo comum de emitir as palavras. No falar corrente há a preocupação golpeante de eliminar as derradeiras sílabas do termo. E daí a linguagem falada e a linguagem escrita caminharem no mesmo rumo e com o mesmo objetivo declarado.

Há ainda as entoações diferenciadoras. Em português, a palavra pronunciada sobe e decai, para descrever um triângulo agudo. Situa-se no vértice, o tom mais alto. No período esse movimento ascendente e descendente também se verifica. Desde a emissão do primeiro ao último vocábulo, a harmonia se torna musical através das tonalidades agudas ou graves descritas pelos sons articulados. O linguajar americano difere, nesse ponto, do dialeto britânico. Menos flexível e mais monótono, aquele traça a curva menos acidentada, em diapasão mais baixo que a melodia de idêntica frase falada por qualquer londrino.

Outra particularidade ainda se assinala. Nos Estados Unidos as consoantes soam mais claras, as vogais mais abertas, e o acento escorrega, quase sempre, para o final da palavra. Assim, na Inglaterra os vocábulos “advertisement” e “temporarily” são acentuados na penúltima silaba, respectivamente. Quando os americanos pronunciam essas duas palavras, a acentuação recai na antepenúltima silaba em ambos. Muito embora nestes derradeiros séculos o acento haja andejado sobre os vocábulos britânicos, ele também difere no linguajar americano. Daí palavras como “adult”, “address”, “alloy”, “ally”, “centenary”, “defect”, “inquiry”, “magazine”, “romance”, “survey”, “reserch”, serem acentuadas na última silaba, na América e na penúltima, na Grã-Bretanha. Explica-se essa constância na diferenciação pela influência de outros idiomas, latinos ou eslavos, no dialeto americano. E assim o homem dos Estados Unidos reúne, ao seu vocabulário, palavras de origem francesa, espanhola, portuguesa, holandesa, germânica, indígena e mesmo do iídiche judaico.

Termos arcaicos, obsoletos vivem ainda na América. Formas léxicas e gramaticais lembram a colonização inglesa. Bem antigo vocábulo inglês, empregado por um ou outro poeta insular, freqüentemente se encontra na linguagem popular do americano. Encontradiço igualmente em Milton e em Shakespeare, o termo “homely” guarda, nesses dois poetas, o sentido ainda corrente nos Estados Unidos. Por essa forma evidenciam-se bem as diferenciações existentes entre o idioma de Oxford e o linguajar de Chicago. E são bem características essas divergências, de ordem psicológica e social, entre o “inglês do rei” da Inglaterra e o outro inglês falado e escrito nos Estados Unidos.

Esses traços marcantes refletem certas formas acentuadamente típicas da civilização técnica e industrial estruturada pelo americano. Daí esse dialeto jovem, sadio e bárbaro trazer o cunho vivo do novo mundo em marcha para o futuro. Reproduz, em potencial, a desordem cultural desse povo construtivo. E esta ode, composta ao gosto de Horácio, por autor estadunidense anônimo, canta a glória do linguajar americano a esplender no ritmo dinâmico da indústria moderna:

“Chipeco thermos dioxygen, temco sonora tuxedo
Resino! fiat bacardi, camera ansco veatena;
Postum nabisco!

Prest-o-Lite arco congoleum, karo alluminium kriptek,
Crisco balopticon lysol, jello bellans, carborandum!
Ampico, clysmic swhoda pantasote necco britamnica
Ecyclopaedia”