História e Lenda


Tito Lívio Ferreira


Conhecer a verdade ou a mentira de um fato absoluto é coisa assaz relativa nos domínios da história, sobre ser quase impossível. Porque a mentira, a cada instante que passa, adere sorrateira e sub-reptícia, aos flancos da verdade, dominando-a. Confirma e comprova esse asserto, o caso muito conhecido, que ocorreu com o historiador e aventureiro inglês, “sir” Walter Raleigh. Estava ele preso na Torre de Londres e enchia o vazio das horas escrevendo. Tinha quase pronta a segunda parte de sua “História do Mundo”. De uma feita o trabalho foi interrompido por um rumor insólito vindo da rua. Debaixo da janela da prisão o povo amotinado batia-se com a soldadesca. Atento aos menores incidentes da luta, Raleigh anota, com rigor e cuidado, tudo a que está assistindo. Ninguém como ele, testemunha presencial dessas ocorrências — pensava — poderia narrá-las com mais vigor e fidelidade.

Contudo, no dia seguinte, a desilusão foi aniquiladora. Viera visitá-lo um amigo que havia tomado parte saliente nos sucessos da véspera. Depois de escutar, da boca do historiador, a narrativa do combate desenrolado debaixo do gradil do xadrez e de seus olhos, o amigo contradiz o narrador, desconcertando-o. Este protesta. Aquele replica. Acha a narrativa de Raleigh pejada de parcialidade e de inverossimilhança. E narra, a seguir, conforme a sua visão, o motim em debate. A variante dos fatos abre no espirito do historiador clareiras de dúvida. A incerteza, tecida de retalhos de certeza, esfarrapa-lhe as ilusões. Permanece por algum tempo indeciso e pensativo. Depois, num gesto decidido e desesperado, deita ao fogo do manuscrito da “História do Mundo”.

Decorrem desses pontos de vista diversos problemas históricos sem dúvida difíceis de serem resolvidos. envoltos, como aparecem, nas sombras das incertezas e dos pormenores deformadores, para serem discutidos à luz serena e severa da verdade. Conjugadas à historia e a lenda desviam as pesquisas de sua rigorosa objetividade documentária. E o espirito se perde, evocadoramente, no cipoal das mais arrojadas hipóteses.

Podemos citar, mesmo entre nós, dois acontecimentos históricos muito discutidos. O primeiro é o de Tiradentes, o alferes da Inconfidência. O segundo é o do cabo Chaguinhas, do motim santista.

Martim Francisco indaga: “Tiradentes foi enforcado?” Assalta-o a dúvida. Tece com malícia e erudição, em torno da figura do mártir da Independência, uma teia de considerações bem humoradas. Entre a forca e a escapatória, deixa a vítima movimentar-se numa tentativa de escolha. Faz mais. Não lhe tolhe a liberdade. Coloca, entre a corda e o pescoço do condenado, as camadas de algodão da dúvida. Vieira Fazenda segue, paralelamente, os raciocínios do Andrada. Frente a frente, ambos se interrogam. Hirtas e discretas, as interrogações se alteiam sobre o patíbulo.

O segundo, o Chaguinhas, padeceu, com as honras do posto, “morte natural”, enforcado. Mais tarde, depois do laço bem arrochado ao pescoço, padeceu o desespero de não ser acreditado pelos pósteros.

Indecisos andam certos historiadores a esse respeito. Contudo é bem de ver que os supliciados perdidos na histórias e nos arquivos, não sofreram, após a “morte natural”, dúvidas maiores acerca da verdade ou mentira desse fato acabado.

Martim Francisco alega, a favor de suas desconfianças, diversas divergências e ambigüidades do processo: “Ninguém, por ocasião do suplício, lhe viu o rosto (de Tiradentes), e até hoje se discute se ele era feio ou bonito”. Que “a terrível sentença arrancava soluços e gemidos aos demais réus; quietamente lhe ouvia Tiradentes a dilatada leitura; e no dia seguinte, quando intimado de que seria o único conduzido ao patíbulo, alegre, sem meia queixa, manifestava a todos os companheiros cordiais felicitações”.

Todavia, se Tiradentes passou ou não passou pelo laço corredio, nem Martim Francisco nem Vieira Fazenda o explicaram, com derramado documentário à vista; nem se o enforcado foi “outro” (1).

Com o cabo Chaguinhas o caso é diferente. Antonio de Toledo Piza diz, seguindo a tradição oral, que Martim Francisco (o velho), então governador de São Paulo, mandara substituir o penitente por um boneco. Este foi, ao lusco-fusco, justiçado no alto da forca, horas depois de se ter, conforme reza a unanimidade dos historiadores, partido a corda por três vezes. Essa versão, porém, fóra de todo o sentido lógico dos acontecimentos, está, amplamente e completamente, desfeita. Assistiram à execução da pena última os tabeliães de notas então em exercício. Em certidão passada no mesmo dia, confirmaram a morte da vítima, com todas as desumanidades de estilo, sob a fé de seu ofício. (2)

Como se teria dado, afinal, a evasão de Ney? A versão corrente assim se resume: Ney foi condenado ao fuzilamento. Dedicados amigos e companheiros de armas querem, a todo custo, salvá-lo. Após a descarga, Ney caí de bruços. Um oficial inglês testemunha o ato. Aproxima-se do morto e, com fleuma, mergulha o lenço no sangue que mana do peito do marechal. A certidão de óbito será esse lenço ensopado no sangue do morto. No entanto, isso não corresponde à verdade. A verdade, muito ao contrário, segundo corre em Hickory, revela o fundo falso da cena. Os soldados descarregaram as armas para o alto. Ney tomba. Bate no coração com a mão direita. Rompe-se, então, uma bexiga contendo líquido vermelho, semelhante ao sangue. Nenhum tiro de misericórdia é disparado. Tudo se passa conforme fôra previamente combinado. O corpo é transportado para a Maternidade, onde mãos amigas fazem, facilmente, a permuta: substituem o falso defunto por um cadáver autêntico. Disfarçado, Ney sai da Maternidade. Com que fantasia deixa esse Hospital, não sabemos. Em todo caso, alcança Bórdeus. Daí transpôs o Atlântico. Hickory o acolhe. Aí permanece até o final da existência, no exercício da pacata profissão de mestre-escola, em contraste com o belicoso ofício de outrora. “In articulo mortis” desvenda afinal a sua até então ignorada identidade (3).

Esta história nos vem da América do Norte, com todos os pormenores, mostrando como é grande a admiração desse povo pelo general Lafaiete, e que envolve ao mesmo halo, o marechal Ney. Não será de admirar se o prestígio do general dentro em pouco, empalidecer um tanto, ante o brilho dos galões do marechal. Tal é, em todos os tempos e em todas as histórias, a contingência do reconhecimento humano, civil e militar.

E onde a história hesita, a lenda continua.


1.“Contribuindo” — Martim Francisco 2. “O Senador Vergueiro” — Dr. Djalma Forjaz. 3.“Le Maréchal Ney est-il mort en Amerique?” — “La Revue des Ambassadeurs” — (Maio 1937) Mr. Lucien Laudy.

Nota do Jornaleco: como “fora” pode ter um significado dúbio, optamos por acentuá-la, apenas neste caso, embora sabendo que tal acento inexiste desde a última reforma ortográfica.



De Alphonse Daudet a Humberto de Campos


Há entre o escritor francês e o escritor nacional intrínseca e intensa afinidade. Afinidade essa revelada desde a infância irrequieta, nômade e aventurosa. Suas existências, desde a adolescência à idade madura, apresentam muita semelhança entre si.

Semeadores de alegrias germinadas no horto de suas próprias amarguras, alçaram com as duas mãos, bem alto, o coração estuante de fé e de esperança.

Alphonse Daudet nasceu em Nimes. Sua meninice foi andeja e perturbada. Passou-a num lar onde o dinheiro era furtivo. Seu pai mudava de profissão da noite para o dia. Inicia a vida, sem peias. Ninguém tem tempo para se ocupar dele. Entra em Paris aos dezessete anos. Freqüenta, com assiduidade, todos os cursos de boemia e vagabundagem.

Mais tarde, quando a ataxia o empolga e o faz sofrer, ele confessa, aos íntimos, sua mocidade desregrada.

Torturado pelos mais cruéis sofrimentos físicos, durante quinze anos, um dia, murmura: — Sou justamente bem punido por ter muito gozado a vida.

Os padecimentos são atrozes. Não o impedem, porém, de escrever as páginas mais belas de seus livros.

Sua mulher, certa vez, escreve à Ed. de Goncourt: — Alphonse padece, todos os segundos, dores profundas e dilacerantes.

Percorre, a conselho médico, estações de cura. Suas dores se agravam. Atingem o período mais agudo. Suas contrações nervosas, seus olhos extintos e seu rosto pálido são bem o reflexo de sua máxima tormenta. E ele diz: Há momentos que invoco a morte. Só ela me libertaria de meus males.

Viaja, vai à Suíça, à Londres, à Veneza. Não dorme sem tomar cloral ou morfina. Nas suas “Notas sobre a vida”, escreve: — Tal qual Macbeth, matei o sono há muitos anos. Todas as noites tomo um narcótico para repousar por alguns minutos.

Suas dores só se acalmam com sedativos.

Não o poupam a maior parte dos outros sintomas somáticos da ataxia. Goncourt, assinala: Suas mãos, ao acordar, parecem folhas secas, encarquilhadas, contraídas durante a dormência, nas crises de dor.

As amarguras aumentam. Ataca-o a hiperestesia dos sons. Seus olhos, bastante enfraquecidos, receiam a luz solar. Quando fechados, o exterior das pálpebras apresenta melindrosa sensibilidade. Mergulhado em indefinida sonolência, um toque de campainha, ressoando no ar, parece estilhaçar-lhe o tímpano do ouvido. As intermitências da luz produzem-lhe dolorosos fenômenos visuais.

Esgrimista como era, renuncia a esse exercício. Amigo de longas caminhadas a passos rápidos, abandona esses passeios. A paralisia vai tolhendo-o sorrateiramente. Já não pode caminhar só. Tem de se amparar a um filho.

A escrita torna-se-lhe difícil. Difícil e tortuosa. A sua mão, trêmula e tarda, estaca emperrada.

É curioso notar. A ataxia não lhe altera a inteligência. Não lhe esteriliza o cérebro. Inquieta-o a ânsia de trabalhar. Trabalha até o último dia.

Quando já não pode mais escrever, dita suas idéias. Lancinantes dores o prostram. Mas esse martírio não o vence. Impõe-se a si mesmo o dever, nem amargo, de não se queixar de ninguém e de nada. Evita dar o espetáculo de sua agonia. Gosta de acolher os jovens. Encoraja-os. Cria-lhes um ambiente de bondade e confiança. Segue-lhes o caminho do coração. Desejaria ser vendedor de felicidade.

Nos transes mais dolorosos de sua doença, por um milagre divino, sua formidável inteligência não baqueia: é sempre lúcida, límpida e luminosa.

Seu gênio, nos derradeiros anos, vai declinando. Mas continua a luta. Sem desanimo e sem desvanecimento, continua a produzir livros irônicos e sentimentais, polvilhados de humorismo.

Assim viveu, o autor das “Cartas de meu Moinho”, uma existência derreada de angústias. Um dia, quando ele ainda sonhava, no seu idealismo sadio e poético, dar forma e vida às suas mais belas e mais puras idéias, ei-lo que, ferido de morte, tomba, de improviso, do outro lado da vida.

* * *

Humberto de Campos nasceu em Miritiba, no Maranhão. Viveu até ontem. Sua trajetória terrena, ele a descreve nas “Memórias”. “Memórias” é um livro de ousada sinceridade. Nele, a gente hesita: não sabe se admirar a filosofia resignada do sofredor ou a franqueza serena do homem em abrir sua vida, mesmo nos trechos fechados, aos olhos alheios.

Nas “Sombras que sofrem”, um de seus livros mais vividos, as páginas dedicadas “Aos amigos da Bahia”, falam de sua moléstia e de sua férrea força de vontade. Trabalhador infatigável, preso da febre de produzir para viver, só deixou o combate perene para ingressar no perpétuo repouso.

Se não tivesse nascido no Maranhão — diz ele — desejaria ser paulista ou baiano. Baiano, por ter recebido dos intelectuais da Bahia tocante conforto moral. Paulista, porque de São Paulo recebia, não só milhares de cartas amigas, mas também “o maior pedaço de pão”. Era aqui seu maior mercado de livros. Livros onde o artista requintava a nobreza de seu pensamento, na simplicidade elegante da forma.

Dias atrás ainda tivemos a evidente prova de quanto o grande escritor era e será querido e recordado pelos paulistas.

O governo do Maranhão deu a Miritiba, em decadência, o nome de Humberto de Campos. Taiuva, graciosa cidadezinha da Paulista, inaugurou um obelisco em memória do autor de “Poeira”.

E o autor de “Poeira” era bem aquele “Homem do cérebro de ouro” de que fala Daudet, seu irmão — gêmeo na inteligência e no sofrimento. E o ouro mais fino fulgia em suas páginas alegres, onde certas palavras traíam, ao de leve, secretas tristezas.

Quando um dia lhe denunciam o diagnóstico de sua enfermidade, ele prova o fel das horas mais terríveis da sua existência. Os prognósticos da cegueira, da surdez e da paralisia foram se manifestando. Seus padecimentos são horríveis. Todavia, à medida que a doença faz progressos, deformando-lhe e devastando-lhe o organismo, a inteligência, mais arejada e mais fulgurante, se assemelha ao vivo clarão de um farol, numa torre em ruínas, projetando, através do nevoeiro do infortúnio, claridades retilíneas.

A narrativa de seus males emociona. Não os descreve para implorar, para mendigar ou para se lamentar. Escreve pela necessidade de ganhar a vida. E ganha-a com sacrifício e com honra. Suas dores de todos os instantes forçam-no a traçar páginas piedosas, irônicas e humanas.

A hipertrofia da hipófise não se limita à glândula doente. Invade outros domínios. Por alguns anos não consegue conciliar o sono. Se dorme, é por pouco tempo. E desperta de um sono, pesado e pavoroso. A cabeça parece-lhe enorme. A língua lerda. As mãos disformes. Tem vertigens seguidas. Implacável, a doença não pára. Vai arrasando-o.

Cresce, com o sofrimento, o potencial da inteligência. Inteligência cuja lucidez contrasta com as trevas da sua miséria orgânica. Suas crônicas chispam de alegria. Escreve com desespero. Desespero de quem percebe o perecimento gradual de suas forças. Se um dia lhe fugisse de vez — escreve ele — a luz dos olhos, deixaria de escrever. Ditaria seu pensamento. Descreveria, “para os homens que têm olhos, o brilho triste das estrelas da sua noite”.

Não chegou a perder completamente a vista. Antes da cegueira vir apagar os extremos brilhos de seus olhos, ele quis ser operado outra vez, ansiando um pouco de saúde para o seu combalido corpo.

Pela derradeira vez, ele bateu o teclado de sua máquina de escrever — a confidente e companheira de todos os momentos de suplício — para o derradeiro bilhete de despedida. Suas palavras firmes e fluentes escorregaram no papel, exteriorizando seus extremos desejos, com clareza e serenidade. Nada mais esperava da vida a quem tinha dado tudo. Punha nas mãos de Deus a esperança de sua alma. Punha nas mãos do amigo certo das horas incertas, a esperança de seu coração.

E assim, como quem cumpriu religiosamente o seu dever, na passagem por este mundo, cerou, para sempre, os olhos à vida, para abri-los à morte.



Pirandello e os bichos

De Pirandello têm-se dito e escrito muita coisa: bem e mal. Talvez mais mal que bem. Ele é discutido, denegado, e criticado com fúria. Aliás, não está só o brilhante escritor; está em ótima companhia de Bernardo Shaw. Os dois ases da literatura dialogada para consumo de máscaras nuas, quase sempre são metralhados pela prosa de alguns máscaras encobertos. Contudo, as mais ímpares inteligências e as mais policiadas penas do novo e do velho mundos têm celebrado esses dois perenes produtores de literatura moça, muito embora eles tenham, de há muito encanecido. E as suas próprias obras levam os nomes consagrados de seus autores aos quatro cantos deste planeta.

Ao teatrólogo italiano rotularam de revolucionário da arte. Ele se diverte com improvisar, no teatro, trechos da vida real. Refoge de todos os modelos. Não se matricula em nenhuma escola; prefere ser mestre a ser aluno. Coloca os autores à vontade, de maneira a fazerem os personagens sem artifícios. Deixa-os à margem e não à frente da platéia. Esta, ao descer o pano, levanta-se algo desconfiada. Pensa ter caído nalgum logro; mas, daí a pouco, pensa para além da peça e deixa o espetáculo prosseguir no cenário de suas idéias. Por isso, as peças pirandelianas parecem peças pregadas ao público.

Antes da revolução fascista, Pirandello não era levado a sério dentro das fronteiras de sua própria pátria; cercava-o morna indiferença. Após o evento revolucionário foi olhado de soslaio, com desconfiança. Isso, porém, não o impediu de prosseguir no meio caminho andado. Expulsa de cena os fantoches e os declamadores de sete fôlegos, fazendo subir à ribalta os espectadores. E, com “Sei personaggi in cerca d´autore”, deixa artistas atônitos e platéias palpitando.

Suas peças, vitoriosas, transpõem os bastidores, onde deixaram escapar as primeira palavras e onde receberam os primeiros aplausos. Espalham-se por todo o mundo civilizado. Ei-lo coberto de glórias. Oficial da Legião de Honra e Prêmio Nobel. Firma compromisso com a posteridade.

Com sua barbicha brava e branca, coloca-se no vértice do ângulo gizado pela sua arte e entreabre os motivos cerrados dos dramas íntimos. Procura abolir do proscênio as formas caducas. O ator, do seu ponto de vista, deve anular o ensaiador, o contra-regra e a assistência. Solto o diálogo preso pela deixa, esse mundo interior escorrega, com pés de lã, para o exterior. E, quando o auditório se precata, tem diante dos olhos arejadas paisagens humanas. O ritmo sincopado da vida fere, aí, a nota profunda e passageira da realidade.

De outra parte, Pirandello expõe, sobre as bambolinas, indivíduos com aparência de irracionais. Os do sexo feminino merecem-lhe os melhores cuidados. Ao acaso, vejamos. Em “Comme prima e meglio di prima”, peça em três atos, ao descrever certa mulher, empresta-lhe “un´aria smarrita di povera bestia racolta per caritá”; falando de outro personagem, compara-o a um “un vecchio camello”, e empurra para a cena outra mulher “stupida come una gallina”. Pouco adiante, acha a mesma criatura com ares de “vecchia pollastra scappata della stia”. Em “L´Uomo, la bestia e la virtú”, apólogo em três atos, apresenta, de entrada, certa criatura com “l´aspetto e l´aria stupida e petulante d´una vecchia gallina faraona”; logo depois puxa pelo nariz um garoto para vesti-lo ao jeito de um “simpatico gatto”; e dois rapazes, alunos de primeiras letras, exibem um ar “bestiale” que consola. A “virtú”, do apólogo, abre a boca como um peixe e é muito senhora de poucas virtudes. A “bestia” marido da virtude, às vezes, é “la belva”. E “l´uomo”? O homem estrangula no subconsciente todos os irracionais reunidos e recalcados.

Nem sempre, porém, o glorioso escritor arrasta ao tablado pessoas com ares de bichos. Certa vez, em Paris, ali por 1923, puxa para o palco um figurante verdadeiro, pelo menos na aparência. Representava-se uma peça onde entra um autêntico burro. O burro, com a dignidade e o desdém naturais num cidadão, representa a sua ponta com consciência. Ganha pelo passeiozinho e pelo trabalho, quarenta liras. Teve altas honras e altos honorários. Em compensação, Pirandello abiscoitou apenas cinco liras e quireras, pelos seus direitos autorais.

Ora, o burro muito pirandellicamente não tomou conhecimento do auditório, nem dos colegas e, muito menos, da peça. Do ensaiador, nem se fala. Mesmo porque, se tivesse de dizer o seu papel, havia de dizê-lo como um homem disfarçado em asno. E isso, é bem de ver, não está na técnica do dramaturgo italiano. Para este, o pessoal, em cena aberta, deve ter a aparência indisfarçável de animalejos ou de bichos, para consolo e caricatura da Humanidade.

As cartas da freira


Está em moda evocar amores célebres com a leitura da correspondência trocada entre amantes ou namorados. Esse reviver de vidas jogadas em cenários antigos e em diferentes climas da alma, polariza sobre os vivos, por igual, a curiosidade e o interesse por amarguras ou decepções alheias.

Traçaram as grandes amorosas, com sangue e sofrimento, em recortes de papel, na angústia dos minutos em fuga, ternuras transbordantes, para um dia serem comentadas a frio, com volúpia, pelo esmiuçamento das emoções dos outros e das outras.

Ora, nem sempre essas lembranças surgem presas pelo alfinete de ouro da felicidade, idealizado por Alphonse Daudet; aparecem, quase sempre, fixadas pelo alfinete de ferro da desventura.

Assim, sóror Mariana, a formosa freira portuguesa, escrevendo as suas imortais cartas ao cavaleiro de Chamilly, na serenidade do claustro, resplandece de paixão e alvoroço. Fremente de beleza e mocidade, ele alça o coração ao alto do lírio vermelho de seu grande amor e de seu doido desengano.

E quem era Chamilly? Noël Bouton de Chamilly, capitão de cavalaria e conde de Saint-Léger, francês de nascimento e heróis da aventura, entra em Portugal no decorrer de 1666, aquartelando-se em Beja. Tem trinta anos; é elegante, ousado e volúvel. Companheiro de armas do francês, o irmão de Mariana apresenta-lhe Chamilly, no parlatório do convento. Ela floresce nos radiosos vinte e seis anos. Alegre como a cotovia ao madrugar da luz, ei-la triste ao avistar o soldado nesse madrugar de seu afeto, pois fica perdida de amores pelo “sabreur”, fidalgo e bronco, no dizer do duque de Saint-Simon. Esse juízo, diga-se de passagem, já antigo, foi há pouco contestado pelo sr. Henri Bordeaux, cuja tendência pelos romances analíticos é bem acentuada. Com tal objetivo, o brilhante escritor publicou há meses atrás, em Paris, “La Petite Histoire”, onde, à luz de muita psicologia e de escassez de documentos contemporâneos referentes ao assunto, procura provar que Chamilly não era ingênuo, nem bronco, ao contrário, era um perfeito cavalheiro e um homem de bem.

Contudo, a conduta do herói contraria com frieza a calorosa argumentação desenvolvida pelo advogado e romancista para defender o seu constituinte literário.

Terminante e clara, a peça acusatória se cose com mais algumas palavras.

As visitas ao parlatório vão-se amiudando. A freira pressente descerrar-se em sua alma, o drama doloroso do seu destino. Inebriam-lhe os sentidos as frases envolventes do experimentado cavalheiro. Em pouco a paixão queima-lhe o peito, deliciando-a. Chamilly, é bem de ver, ama o galanteio através do amor; Mariana, suas palavras o confessam, ama o amor através do galanteio.

Deslizaram, despercebidos dos amantes, alguns meses de sonho. Chamilly, no correr do ano seguinte, deixa Portugal, retirando-se para a Espanha, afim de prosseguir em combates e conquistas. Outras terras, outros amores. Sob o céu de Andaluzia, esquece a amante em cujos olhos se desfaz a névoa dourada do engano, punida pela traição e pela indiferença. Algum tempo depois, regressa a Paris. E ali recebe as cinco famosas cartas em cujas linhas referve toda a exaltada emotividade da missivista. Todos os gritos da alma ferida ressoam nas palavras gravadas com arrebatamento e desencanto. Na derradeira, sobre o amor arrefecido, ela espalha o ódio ardente, e estiliza: “Experimentei que te queria menos do que à minha paixão e tive extraordinário trabalho em combatê-la depois que os teus injuriosos procedimentos me fizeram a tua pessoa odiosa. A altivez própria de meu sexo não me ajudou estas reflexões contra ti”. E as suas últimas palavras terminam, interpelando: “Acaso tenho obrigação de dar-te exata conta de todos os diversos movimentos de meu coração?”

A pergunta não esperava pela resposta.

Em recebendo essas cartas, Chamilly, envaidecido, as mostra aos amigos, com displicente leviandade. Meses mais tarde, elas apareceram nos salões de Paris, vertidas para o francês.

Extinta a centelha da sensibilidade amorosa e literária, resignada e altiva, Mariana envelhece esquecida na penumbra grisalha do convento. Velhinha, aos oitenta e três anos, em 1723, deslembrada, por certo, das escaldantes cartas nas quais a sua mocidade havia acendido, em cada letra, as claras chamas de seu coração, ela entrega a Deus a alma serenada pela renúncia e pelo desespero.

Em Paris, de conquista em conquista, Chamilly vai até casar-se com certa dama graciosamente feia. Morreu quase octogenário, em 1715. Marechal de França e marquês de Saint-Léger, deixando farta descendência e esquecido daquele humilde e humano coração de mulher que tudo lhe deu — amor e celebridade — nada em troca recebendo.

Aliás, Bernardo Shaw escreveu que “Les Anglais disent que l´étoile d´un homme n´est pas complète sans la jarretière d´une femme”. Neste caso, a estrela de Chamilly foi perfeita: não lhe faltou nem a liga, nem as cartas de u´a mulher para celebrizá-lo, “comme il faut”.

E assim se passam e se contam as pequenas histórias dos grandes amores, através do tempo, do espaço e da literatura.

Do rei e do artista


Há coincidências explicáveis tão-somente pela filosofia dos contrastes. Não têm lógica, nem originalidade; ocorrem no tempo e no espaço, por força de nossa vontade. Por isso mesmo assumem, aos olhos do mundo, aspectos antagônicos, suficientes para desatar desfechos descompassados.

Assim, ainda há pouco, no mesmo dia, em países diferentes e não indiferentes, dois acontecimentos notáveis sobressaltaram, em setores diversos, dois povos quase amigos, agitando-os. Todavia, esses fatos nem de leve se parecem. Embicam-se, quando muito, no epílogo, porque, pela sua simplicidade e disparidade, suas fases se arrastam em ambientes diametralmente opostos.

Sobreveio o primeiro episódio, numa ilha dominadora de mares e continentes. Teve início, desenvolvimento e desenlace no cenário político. Para este convergiram os olhares divergentes de todos os pontos do globo. Golpeou o segundo uma península poderosa e foi, simplesmente, espiritual.

Para designar estes dois atos de finalidades extremas pode ser empregado o mesmo verbo, embora com significações absolutamente contrárias. A primeira personagem abdica para a vida. A segunda criatura abdica para a morte. Naquela, o gesto provoca, pela sua intensidade, um estremecimento no governo e um ligeiro abalo no trono e adjacências. Nesta, ao contrário, a imobilidade apaga, de vez, uma das mais luminosas e mais fortes inteligências do século.

Príncipe e depois rei, popularíssimo no reino e nos domínios, Eduardo de Windsor permuta, displicentemente, os esplendores bocejantes e frios do trono muito alto e muito imperialista, pela penumbra morna e moderada de um ducado, quieto e rendoso.

Nem príncipe, nem rei, Pirandello filia a sua mentalidade à mais límpida linhagem espiritual do humanismo mediterrâneo. E essa realeza literária veio, através do tempo, colhendo a aprimorando o legado cultural das gerações passadas.

Eduardo de Windsor, demasiado liberal e absolutamente democrata, sobe ao trono para reinar conforme as praxes determinam e a Constituição preceitua. Num país onde a ordem pública e a bisbilhotice particular se equilibram e se amparam, escrupulosamente, um rei de idéias minoritárias do senso do dever decepa essa harmonia, essa potente harmonia, estabelecida para unir o passado ao presente, sem solução de continuidade. Porque, se pelas ruas polidas de Hyde Park a aristocracia e a plebe não passeiam a braço dado, em amistosa palestra, elas vivem paredes-meias e se toleram à puridade. Ora, isso está claro, porque ambas são mulheres e, como tais, dignas e dadivosas damas muito senhoras de seus privilégios e de seus flirts. Por isso mesmo levantaram, socialmente, na linha divisória de suas classes, um tabique austero por cima do qual se trocam olhares oblíquos e rosnam bulldogs civilizados.

Herdeiro, deste trono, Eduardo de Windsor foi, um dia, investido, pela ordem, na sucessão paterna e, rei sedentário, despojado de suas insígnias de príncipe itinerante. A queda de todas as suas liberdades individuais provem dessa elevação em benefício da coletividade. Demais, para vigiá-la, dos atos aos pensamentos, montam guarda permanente e pacífica, a essa real pessoa, duas entidades enfáticas e enérgicas: a coroa e o protocolo. Proporciona-lhe esse interessante casal, com a melhor das intenções, os piores desgostos, rebeldes a toda terapêutica oficial: reinol e reinante. A cada passo o rei tropeça, contrariado, na rabona rígida do protocolo propício e sempre dogmático. Quebra-o diante do empertigado escândalo dos graves ministros e conselheiros caturras: personalidades respeitáveis e rotundas, inventadas, especialmente, para complicar a existência desse pobre rei. Entediam-no, de morte, esses implicantes atravessadores de sua vida. Pesa-lhes demais, sobre a fronte leve, a coroa de seus antepassados. Contudo, suporta, com resignação e melancolia, as picuinhas constitucionais veiculadas por esse emproado casal de solícitos assistentes de sua real majestade: o protocolo e a coroa! Rei, escravo desses desmancha-prazeres, curvado, pela pragmática, sobre o espectro de sua álacre expansibilidade de outrora, como lhe sorri, na mente, a idéia precatada de impossível e próxima alforria. A coroa e o protocolo porfiam, aferrados à mais fleumática etiqueta, em querê-lo rei acabado quando S. M. é príncipe perfeito!

Tantas formalidades esse compenetrado casal combinou para amofinar o rei, que este nem sempre está pelos autos desse rigorismo de encomenda. Arrepia-se toda sua alma andeja e atirada, ao sofrer, sem animadversão, tanta arbitrariedade, violentando os seus hábitos antigos. Rei, em toda a plenitude de sua autoridade, ele não é realista, nem o deseja ser, ao que parece.

Mas o rei, certo dia, amanheceu farto: farpearam-no saudades do príncipe. Anuncia, para logo, com firmeza, aos dedicados verdugos, a sua derradeira vontade soberana: abdicar. E abdica. Diante do pasmo irremediável do anquilosado protocolo arranca, de sua cabeça, a coroa de seus pecados, e faz dela o presente de Natal ao seu irmão menor. Respira. Planta no alto do topete um chapéu coco e desce, despreocupado, os degraus daquele trono demasiado alto para sua mediania democrática. Cumprimenta, pela última vez, os lordes, os conselheiros e o mundo. Esquece a numeração romana. Egresso do trono, ingressa, como um príncipe, na sinecura de um ducado sem percalços e sem ônus.

“But, he is a jolly good fellow”, canta-lhe, na alma enamorada, a velha canção amiga.

“Comme prima, meglio di prima”, diria Pirandello, com a sua barbicha branca a espirrar-lhe do queixo, se fosse vivo. No entanto, Pirandello, por outro lado, no mesmo dia, também abdica da vida, sob o imperativo da morte. Despede-se em silêncio, de seus leais semelhantes, e passa, ao substituto desconhecido, a deixa e a dúvida.

Os invernos haviam-lhe, de há muito, coroado de geada a fronte gloriosa batida pelo sol faiscante das fecundas primaveras. Desertavam-lhe do cérebro os diálogos estirados em períodos profundos. Para dizê-los personagens sobravam na platéia e invadiam o palco à procura de autor. Pirandello, entre bastidores, presenciava e anotava o desenrolar das cenas, marcando-as. Conduzida pelo gênio, através do espesso nevoeiro das almas ia avançando a chama inquieta e criadora dessa inteligência ímpar. De repente, vacila. Vento misterioso esfarrapa a flama desse espírito encasulado, ainda há instantes, em viçosa claridade. E para sempre ele mergulha na sombra e na solidão do outro lado da vida.

“Comme prima, meglio di prima, cosi é...se vi pare”, seria talvez, seu derradeiro pensamento, em abdicando.