Cyro dos Anjos
por Marco Aurélio Brasil
Eu tinha um tempo sobrando entre as aulas então resolvi dar um pulo na paradisíaca biblioteca central do Mackenzie. Não sabia muito bem o que queria ler, então fiquei algum tempo circulando entre as prateleiras e namorando as lombadas dos livros. Estava lá no canto da literatura brasileira quando o nome Cyro dos Anjos exposto numa das lombadas ativou circuitos mentais que me remeteram a um extrato de um livro seu que constava de um livro didático de Língua Portuguesa. Lembrei que aquele trechinho do livro me havia agradado e não pude deixar de admirar jamais ter voltado a ouvir o nome daquele autor.Peguei "Abdias" para ler e o fiz duma sentada só, sobressaltado com a enorme qualidade do texto. Corri num sebo, comprei o meu exemplar e fiz questão de emprestá-lo dúzias de vezes. Sabe aquela impressão de conhecer um tesouro e não se conformar em deixá-lo na obscuridade? É como diz o Albert Camus, "não há vergonha alguma em alguém ser feliz, mas seria vergonhoso ser feliz sozinho", de modo que me tornei um promotor de Cyro dos Anjos por onde passei. Abdias foi um dos pouquíssimos livros que li duas vezes, e na segunda com o mesmo sem-fôlego, admirado da maestria do livro. No entanto, o tesouro continua tesouro escondido. Cyro what? Quem é esse cidadão? Que raio de literatura ele fez? De que buraco saiu e pra qual voltou?
Cyro Versiani dos Anjos é colocado pelos entendidos do negócio entre a segunda geração modernista. Nascido em Montes Claros-MG, em 1906, levou a vida quase que toda como funcionário público e como professor de língua portuguesa e literatura. Nos intervalos publicava alguma coisa; mas muito pouca: dizia escrever pouco para ser um leitor mais puro. Sua obra mais famosa foi O Amanuense Belmiro, escrito ainda nos anos 30 em forma de diário, contando a história de um solteirão funcionário público que se abala com a mediocridade de sua existência e tenta sublimá-la entre memórias e amores platônicos. Um Braz Cubas versão século XX. Se, contudo, a Cyro dos Anjos falta o humor ferino de Machado de Assis, sobram-lhe poesia e lirismo. Poesia e lirismo de primeira, é bom que se diga...
Abdias é a obra de sua maturidade. Também escrito no formato de diário, conta a história de um professor de português (Cyro dos Anjos, como se vê, gostava de falar do que conhecia) de um aristocrático colégio para moças da Belo Horizonte dos anos 40 que começa a cair de amores por uma sua aluna, filha de sua paixão adolescente no rincão natal. Ele é casado, contudo, e não quer reconhecer para si mesmo que está apaixonado. Cyro dos Anjos fala disso, mas de muito mais coisas. O grande assunto do livro é nossa incapacidade latente de saber o que nos vai ao coração, o que realmente pretendemos sob a multidão de justificativas e desculpas de que nos armamos. O leitor desconfia, depois sabe muito bem o que está acontecendo, mas o protagonista se engana enquanto pode. A dosagem dos sentimentos, sua evolução durante a narrativa, a multidão de frases belas e de efeito, a poesia maravilhosa polvilhada na narrativa, tudo faz de Abdias uma obra de Mestre. Mestre com M maiúsculo sim senhor.
No entanto, pouca gente sabe. Quem entendia sabia, e tanto que Cyro dos Anjos substituiu Manuel Bandeira na Academia Brasileira de Letras. Ele era reverenciado por figuras como o próprio Manuel Bandeira e por Carlos Drummond de Andrade. Merecia mais, no meu modesto entender.
Não só para fazer justiça a Cyro dos Anjos, mas porque entendo que neste nosso tempo, em que a gente se convence facilmente das piores sandices, a leitura de Abdias e o conseqüente olhar de soslaio para o cidadão no espelho viriam muito a calhar.
Ah, meu Abdias sumiu. Emprestei para alguém que gostou tanto que esqueceu de devolver. Mas não tem nada não. Corre nas livrarias virtuais da vida que já dei uma olhada e vi que está baratinho. Run, Forrest, run!
Biografia de Cyro dos Anjos
Cyro dos Anjos (Cyro Versiani dos Anjos) nasceu em Montes Claros-MG, em 05 de outubro de 1906; penúltimo dos quatorze filhos que Antonio dos Anjos e Carlota Versiani dos Anjos tiveram, estudou lá por Montes Claros até 1923, quando bandeou-se para a capital Belo Horizonte a fim de estudar humanidades e cursar Direito. Durante esse tempo atuou como funcionário público e como jornalista.
Esteve no Diário da Tarde (1927), no Diário do Comércio (1928), no Diário da Manhã (em 1928) e no Diário de Minas (1929/30). Esteve também em A Tribuna (1933) e no Estado de Minas (1934-35).
Formou-se em 1932 pela Universidade Federal de Minas Gerais e voltou ao rincão natal para tentar a advocacia, mas não se deu bem com a prática do Direito. Desistiu da militância como advogado e voltou à imprensa, mas especialmente ao funcionalismo público.
Alguns dos cargos que exerceu foram: oficial de gabinete do Secretário das Finanças (1931-1935); oficial de gabinete do governador (1935-1938); diretor da Imprensa Oficial (1938-1940); membro do Conselho Administrativo do Estado (1940-1942); presidente do mesmo Conselho (1942-1945). Ajudou também a fundar a Faculdade de Filosofia de Minas Gerais, onde lecionou Língua Portuguesa (1940-1946).
Em 1933 era redator dA Tribuna e por ali publicou uma série de crônicas que seriam o mote inicial de seu livro mais famoso, O Amanuense Belmiro, que viria a ser publicado quatro anos mais tarde.
O Amanuense Belmiro tratava de temas que Cyro dos Anjos conhecia bem; conta a história de um funcionário público de quase cinqüenta anos, cheio de vida interior mas aparentemente incapaz de fazer algo de realmente notável no mundo dos fatos. O Belmiro do título mantém um diário no qual destila sua amargura, suas observações agudas, seu amor platônico por uma amiga, que por vezes confunde com uma garota que encontrou fantasiada em um baile de carnaval, seus conceitos sobre literatura (que vê como uma espécie de remédio para a angústia existencial) e sua observação do mundo exterior. A obra traz uma certa identificação temática com a melancolia do Braz Cubas Machadiano, que constata não haver feito nada em sua vida. A influência de Machado de Assis vai mais longe, porém: atinge o estilo sofisticado e preciso da escrita, só deixando de lado o humor cáustico e fino do mestre carioca.
Por esses e tantos outros predicados, O Amanuense Belmiro destaca-se bastante da literatura que se praticava no Brasil à época, quando o romance regionalista parecia dominar as tendências. De fato, o romance é cheio de poesia e lirismo, focado no campo dos sentimentos e reflexões sobre amor e arte do protagonista (e, por tabela, do próprio autor), distante de preocupações políticas e sociais.
Com o Amanuense, que mereceu traduções para inglês e francês, Cyro marcou presença na chamada 2ª geração modernista, ao lado de nomes como Carlos Drummond de Andrade (que era grande admirador da verve de Cyro, a ponto de dizer: "Cyro dos Anjos figura hoje entre os quatro ou cinco escritores de ficção que realmente escrevem, no Brasil. A maioria, mesmo assistida por imaginação e idéias, não domina o instrumento"), Erico Verissimo, Cecilia Meireles, Graciliano Ramos. Rachel de Queiroz, Jorge Amado e outros, decerto um dos períodos mais pródigos em bons autores e livros de nossa literatura- o que talvez ajude a explicar a razão de Cyro dos Anjos haver permanecido tão ignorado do grande público ao longo desses anos.
Em 1945 publica "Abdias". O romance possui diversas identificações com O Amanuense Belmiro: também é escrito na forma de diário, também retrata um homem cheio de vida interior mas que prefere a melancolia à ação e também é cheio de observações argutas a respeito dos relacionamentos humanos e da forma como os sentimentos se desenvolvem dentro das pessoas, contudo, "Abdias" é um romance mais maduro e representa a grande obra prima do mestre mineiro.
O protagonista que empresta o nome ao título é um professor de literatura em um aristocrático colégio para moças em Belo Horizonte. Uma de suas alunas é filha daquela que havia sido sua grande paixão adolescente, em sua cidade natal, no interior de Minas. A semelhança física da moça com aquela que havia sido durante toda a vida o ideal de amor do professor acaba por inpirar-lhe uma paixão tão absurda como inoportuna. Ele, contudo, engana-se e em seus escritos no diário arruma desculpas para o desejo de estar perto da moça. O leitor acompanha o lento caminho do despertar do protagonista para os fatos e talvez esse seja o grande tema do romance: a dificuldade do homem para conhecer as reais motivações de seus atos e a facilidade com que se cerca de justificativas para o injustificável. Abdias é um grande desconhecido de si mesmo, como todos somos. Mais uma vez a obra é emoldurada por doses cavalares de lirismo e poesia, polvilhada de momentos belíssimos. Cyro provavelmente fala de si mesmo através do lápis de Abdias em diversas passagens, tais como quando o protagonista afirma: "sou muito mais um homo scribens que homo loquens".
Abdias rendeu a Cyro dos Anjos o prêmio Academia Brasileira de Letras.
Em 1946, Cyro deixou suas ocupações públicas no governo mineiro e a atividade como professor na Faculdade de Filosofia para assumir um cargo no ministério da Justiça de Vargas, no Rio de Janeiro. Atuou também, naqueles anos, como Diretor do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado (IPASE), como Presidente do mesmo Instituto, além de jamais haver-se afastado da imprensa, colaborando com vários veículos entre 1946 e 1951.
Em 1952 rumou para a Cidade do México para assumir a cadeira de Estudos Brasileiros na Universidade do México. Em 1954 assumiu o mesmo posto na Universidade de Lisboa e foi lá que publicou o ensaio "A criação literária", aproveitando a experiência de professor, jornalista e escritor.
Voltou para o Brasil no final de 1955 e no ano seguinte publicou "Montanha", romance de temática política e com forte dose de intervenção ensaística, pendendo para o experimentalismo.
Em 1957 assumiu um cargo no governo federal capitaneado por Juscelino Kubistchek, primeiramente no Rio e em seguida em Brasília. Integrou, em 1960, a comissão que planejou a Unb e assumiu o cargo de Coordenador do Instituto de Letras. Em 1963 publicou um volume de memórias chamado "Explorações no tempo" e no ano seguinte seu único volume de poesias, "Poemas coronários".
Em 1969 foi eleito para a 24ª cadeira da Academia Brasileira de Letras, em substituição a Manuel Bandeira.
Aposentou-se em 1976, tornando ao Rio, onde fixou moradia e continuou a lecionar. Repetiu na Universidade Federal do Rio de Janeiro o curso Oficina Literária, que havia apresentado pela primeira vez na UnB.
Em 1979 publicou "A menina do sobrado", livro de memórias em dois volumes no qual "Explorações no tempo" foi inserido com o título "Santana do Rio Verde". A obra lhe valeu prêmios do PEN-Clube do Brasil e da Câmara Brasileira do Livro.
Para um autor de tamanha envergadura, escreveu pouco. Quando perguntado sobre isso, costumava dizer que escrevia pouco para poder tornar-se um leitor puro. Somente um apaixonado pelas letras de coração muito grande, como sempre foi esse melancólico e profundo mineiro, poderia fazer uma tal opção.
Cyro dos Anjos foi casado com Lilita Costa. Filho de uma família numerosa, não quis ficar muito atrás e teve 6 filhos. Foi fundador e primeiro Presidente da Associação Nacional dos Escritores. Cyro dos Anjos faleceu em 1994, no Rio de Janeiro. Infelizmente, o fato passou praticamente desapercebido.
Trecho de Abdias
Trecho de O Amanuense BelmiroMarco Aurélio Brasil é advogado empresarial, paulistano, tem 30 anos.
blog: http://www.verbeat.com.br/blogs/eporaqui/
e-mail: raskolhnikov2000@yahoo.com.br