O amanuense Belmiro
Cyro dos Anjos
1ª edição: 1937
trecho:"Afinal, são inúteis essas tentativas de analise e de interpretação de nós mesmos. Há, em nós, abismos insondáveis, que jamais exploraremos, onde se recolhem, pelo tempo que lhes apraz, as combinações múltiplas, várias, tantas vezes contraditórias, que compõem as formas sucessivas do nosso espírito. Explicar-me-ei, dizendo que hoje dormimos arlequim e amanhã acordaremos pierrô.As vestes ficaram guardadas em qualquer guarda-roupa de nossas profundezas onde se amontoam peças de indumentária que variam até o infinito. E alguém no-las troca sorrateiramente, durante o sono, de acordo com um critério que nos escapa. E esse alguém às vezes se diverte, pondo-nos de casaca e em cuecas, ou pregando-nos um rabo de papel no jaquetão. O fato é que se frustra todo o esforço enorme que despendemos para nos impor certa disciplina, certa unidade, certa coerência. À sorrelfa, algum diabo malicioso inutiliza todo o nosso trabalho, e amanhã seremos o que não queremos, e hoje somos o que ontem fôramos e não quiséramos ser mais.
Faço esta divagação para me justificar. Estou com vergonha de confessar o que se passa comigo. Há cerca de vinte dias, cedendo a um impulso de revolta (?), tiro do altar o meu mito, faço com que, à luz do dia, se desvaneçam os espectros que, dentro de mim, compuseram uma Carmélia imaginária. Uma semana depois, julgo-me curado da fantasia, pilherio comigo mesmo, chego a relatar ao Glicério toda a historia, supondo-a uma burlesca história do passado. Não são decorridos quinze dias, e...a mão esquerda terá de limpar o que a direita escreveu.
Como já disse, a gente não sabe como essas coisas acontecem. Só posso dizer que experimentei hoje uma recidiva violenta, amanheci angustiado depois de ter passado uma noite fértil em sonhos.
Carmélia me apareceu neles, participando de cada um, ora minha, ora de outros, ora viva, ora morta.''