São Paulo, 27 de julho de 2006
Clarice Villac
Paulistana, mora em Campinas - SP.
Estudou Letras na Puc-Campinas, foi professora de Português, e exerce o ofício de revisora editorial há duas décadas, especialmente na área de Educação.
Prefere se expressar com Poesia, devido à multiplicidade inexata das palavras.
Necessita de espaços abertos, horizontes amplos, intervalos de silêncio e sossego para viver. Entende melhor os bichos do que as pessoas.
Retomou a escrita ‘convivendo’ com amigos que escrevem em sítios literários. Divide com a amiga Vera Vilela (fundadora) a edição da fase mais recente do sítio Anjos Caídos.
Reúne no Ponto de Luz seus textos e os de alguns amigos.
e-mail: clarice@villac.pro.br
Adversidades XXIdiversidades
diversas
cidades
diversas
idadesdivisas
desigualdades
mas visas
vidas
não-divididasdisparam
disparidades
distraídas
dissimuladas
em nossas cidades:
dissociabilidadesdivergimos
dispersamos
debilitamos:
excentricidades
contemporâneas
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Bailarinas Só Humanas
ursos
poodles
macacos
abusos
sustos
castigos
não há rima
possível
que permita a injustiça
de transformá-los
em bailarinas
Homo sapiens
digno desse nome
não tolera mercenários
acorrentando elefantes
condicionando leões
violentando a dignidade
dos animais
travestidos em bailarinas
dolorosos bastidores
dos ruidosos espetáculos
animais coisificados
em troca do dinheiro
coletado entre sorrisos
sórdidos dissimulados
Alegria de quem ?
Da Essência
O que eu disser
Que seja sentido
Como sincero
Que gere sementes
De uma vida melhor
O que eu disser
Que seja compreendido
Como quero
Ou sejam palavras silentes
Imagens latentes
Gestando um sentido maior
*música incidental:
“Oh Lord,
please don’t let me be misunderstood...!”
por Joe Cocker
Gazal para Escher
Maurits Cornelis Escher
Veio conosco mexer
Em grafismos os padrões
a desestabelecer
Na interseção de planos
tudo desentorpecer
Recriar cotidiano
os conceitos inverter
Rever as perspectivas
surreal reconhecer
Provocando a consciência
nossa vida engrandecer
Reunindo em sua arte
anoitecer alvorecer
movimento
silenciosopreciosa quietude
respira a lua minguante
preparação e repouso
qual orvalho refrescante
num processo bem sutil
desenha novo perfil
visível mais adiante
O homem-ponte
na família, era o diplomata
escutando, conciliando, aproximando
na profissão, corajoso
saltava do caminhão em movimento,
arriscava-se coletando as embalagens
enfrentando latidos, vidros partidos
noites frias, chuvosas
mormaços de verão
barulhos no caminhão
odores avessos da civilizaçãohomem forte
pra família voltava
e era acolhido por fisionomias amorosas
seus entes queridos
recompensa de todas as viagens
era estar com eles mais um momentona tarde seguinte
lá se ia o homem-ponte
continuar sua missão ganha-pão
e garantia com seu esforço
uma cidade mais limpa
o reaproveitamento do metal
vidro, plástico, papel
a realidade que conhecia
no lixão
sempre lhe partia
o coração
mulheres, crianças
pessoas, urubus
a procurar o sustento
nos avessos da civilizaçãoo homem-ponte
unia os extremos
entre eles ia e vinha
equilibrava as realidades opostas
carregando em suas costas
os avessos da civilização
Onde ? (poeminha à margem)
Ia escrever um verso,
sumiu...
Ia enviar um recado,
evaporou...
Ia fotografar o pássaro,
voou...
Pensamento em alhos,
manifestaram-se bugalhos...
Era tempo de silêncio.
Piedade e Sacolas Plásticas
Em sua rota marinha,
atravessa oceanos,
Tartaruga confiante.
Porém os seres humanos
espalham sacolas plásticas,
qual caravelas fantásticas,
qual flutuantes enganos.
Ao chegar perto da praia
vê diferente medusa
bela antiga Tartaruga.
E, apesar de confusa,
ela engole a “água-viva”.
Pena que não sobreviva.
O plástico nos acusa.
Proximidade Entrelinhas
entrecruzam-se no espaço invisível
entreolham-se com palavras antenas
entrecortadas ficam as solidões
entremeadas com presenças em flash
entretecidas convivências
entrelaçando pontos de vista
entretenimento compartilhado
entre amigos no século XXI