São Paulo, 7 de agosto de 2006

Caso Araceli : a cobertura da Imprensa

(um documentário de Tatiana Beling)

 

Araceli Cabreira Crespo tinha 8 anos de idade e morava em Vitória, Espírito Santo. Era o dia 18 de maio de 1973, e ela não havia voltado do colégio. Seu pai começou a procurá-la pela cidade e, sem a encontrar, a espalhar fotos suas pelas redações de jornais. Seis dias depois seu corpo foi encontrado: ela havia sido drogada, estuprada, torturada e morta. Seu corpo desfigurado com ácido para que não houvesse possibilidade de identificação. Conta-se que o corpo de Araceli foi identificado pelo seu cachorro, de nome Radar, ainda na gaveta do IML. Aí começou uma das investigações mais confusas na história criminal do país. Os supostos assassinos, filhos de famílias ricas de Vitória, foram absolvidos. As provas do crime destruídas. A mãe de menina, dona Lola, uma boliviana que retornou ao país de origem logo depois da morte de Araceli, traficava drogas e foi, indiretamente, acusada de participação no crime, pois teria pedido à menina que entregasse um envelope em um determinado edifício na tarde do seu assassinato. O local onde Araceli foi morta. O tempo passou e o crime prescreveu. O dia 18 de maio se transformou no Dia Nacional de Combate ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes.

Passados trinta e dois anos, em 2005, Tatiana Beling, de Vitória, fez um trabalho de final de curso de Rádio e TV, um documentário intitulado Caso Araceli: A cobertura da Imprensa. O foco foi a Imprensa do Espírito Santo, mas que reflete, com maior ou menor intensidade, o que acontece nas grandes capitais. A intenção foi mostrar como a Imprensa atuou no caso. Há uma série de depoimentos de jornalistas que cobriram o caso, à época, e muitos deles contraditórios. Quando termina-se de assistir ao documentário, tem-se a impressão de que era um bando de franco-atiradores e não jornalistas cobrindo o caso, tamanha a discrepância e discordância das fontes com as quais eles trabalhavam.

O documentário levou 6 meses de pesquisas, um mês para ser gravado e 15 dias para ser editado. Seu custo foi de 700 reais, divididos entre Tatiana e o produtor Diego Herzog. Não houve custos de estúdio porque o documentário foi editado na faculdade.

Ficha Técnica:
Direção – Tatiana Beling
Produção – Diego Herzog
Assistente de Produção – Clã Mussi
Roteiro – Tatiana Beling
Fotografia – Rafael Malta
Sonoplastia – Tatiana Beling e Rafael Malta
Edição de Imagens – Lorenzzo de Angelli


Prêmios:

— Prêmio Júri Popular – 6ª Mostra de Cinema e Vídeo da Barra do Jucu – Curta Barra,ES.
— Prêmio Júri Popular – 3ª Mostra de Vídeo Universitário do Museu de Arte do ES.
— Prêmio Júri Oficial – 3ª Mostra de Vídeo Universitário do Museu de Arte do ES.
— Prêmio Melhor Documentário – 1º Festival de Cinema de Colatina,ES.



Conversa com Tatiana Beling


Jornaleco: Tatiana, o que te motivou no final do curso de Rádio e TV, a apresentar um trabalho sobre Araceli? De quem foi a idéia?
Tatiana: A idéia foi minha, depois de ler o livro do José Louzeiro “Araceli, meu amor”. Pedi para o Diego ler e perguntei se ele não estava a fim de fazer um documentário sobre o caso. Nós nos formamos em Rádio e TV. Nosso orientador sugeriu que fizéssemos sobre a cobertura da imprensa no caso Araceli, e gostamos da idéia.

Jornaleco: Aproveitando a pergunta, porque você escolheu o documentário como linguagem?
Tatiana: Sempre achei que o documentário dá uma credibilidade maior. Acho que por ser um produto audiovisual, onde os personagens são reais. O jornal impresso pode ter coisas inventadas pelo autor da reportagem, mas no documentário a pessoa que viveu “aquilo”, conta como foi, e não tem como inventar nada, a não ser que se manipule a edição.

Jornaleco: Qual a diferença, do caso Araceli, na sua cabeça, do que você sabia e pensava, antes de realizar o documentáio, e agora?
Tatiana: Eu pensava o que todos pensavam: que a Imprensa fora comprada e que os assassinos foram Dante Michelini e Paulo Helal. Hoje depois de ter conversado com várias fontes e descoberto muitas coisas, eu não tenho a mesma certeza.

Jornaleco: O que mudou para você?
Tatiana: Na verdade, nada mudou, o que fez diferença foi a forma como passei a ver a Imprensa. Sempre achei-a má, parcial e sensacionalista, mas nesse tipo de caso, você pára para pensar mais. E o que me fez parar para pensar, depois de fazer o documentário, foi a impunidade do crime. Nunca ninguém foi punido, e isso é um absurdo.

Jornaleco: Uma coisa chamou muito minha intenção: um dos repórteres do caso afirma que “a polícia ganhou dinheiro pra destruir as provas”. Como fica a atuação da imprensa, uma vez que eles sabiam que as provas foram destruídas, e com provas destruídas tudo seria uma grande farsa?
Tatiana: Eles não tinham muita coisa a fazer. Era época da ditadura e a polícia controlava demais o que saía. E o que a Imprensa queria era vender, prejudicando quem quer que fosse para isso. E prejudicou

Jornaleco: Paulo Helal e Dante Michelin, que foram acusados, julgados e absolvidos por falta de provas, não quiseram dar entrevistas? E os juízes e delegados que atuaram no caso?
Tatiana: Nenhum dos dois quis. Os delegados não consegui entrar em contacto. Consegui um contacto com um Juiz da época que enrolou, enrolou, mas não deu entrevista.

Jornaleco: Hoje, o jornalismo está diferente? Mudou alguma coisa?
Tatiana: Não, infelizmente. O exemplo disso é a Escola de Base, aí em São Paulo. Jornal é empresa privada. Quer gerar lucro, sempre mais, não importa o que vai publicar. Salvo algumas exceções, o jornalismo ainda é o mesmo do que aquele da época de Araceli.

Jornaleco: São Paulo tinha, à época da morte de Araceli, uma das mais atuantes “Comissão de Direitos Humanos”, encabeçada por D. Paulo Evaristo Arns. Politicamente, falando, é claro. Há alguma notícia da atuação de tal comissão?
Tatiana: Não que eu conheça.

Jornaleco: Você termina o curso de jornalismo, já dando um rumo à sua carreira, no caso, o documentário?
Tatiana: eu sou assessora de comunicação e marketing de um candidato a deputado federal. Mas já tenho outro projetos de documentário em mente, inclusive de outros casos insolúveis no estado.

 

blog de Tatiana Beling: Caso Araceli: a cobertura da Imprensa