São Paulo, junho de 2010

 

 

 

n° 100 — ano IX

 

O Grande Livro dos Telhados

 
 
Lanny Gordin
 

 

 

Editorial

 

 

Lançado o desafio (ou concretizado o sonho) em abril de 2002, não creio que se necessite do 2012 para comemorar um grande marco do Jornaleco, que já passou por tantas (imaginem, até lhe roubaram a casa, o endereço!), e mesmo assim não soçobrou.

As cem edições já lhe assinalam muito bem a trajetória.

Muitos daqueles que o acompanham já conhecem bem seu desenvolvimento, mas para quem não o seguiu, bastaria a leitura do Jornaleco 99, apenas dessa última edição, para entender porque perdura. Para perceber a sanha de Mécia Rodrigues em transpor sensações etéreas para vocábulos com afiada exatidão, a lucidez erudita de Janer Cristaldo a desacomodar os não pensantes, o sarcasmo divertido do Šwøk, o profissionalismo incisivo de Marcia Menser, dragonisa das letras defumadas em nicotina, a perspicácia irônica e emotiva de Anselmo Heidrich, ou Fátima Silva e a afabilidade que deita às letras quando descreve as belezas cariocas. Ao lado destes, e de outros que seguiram para outras plagas, eu, com meus escritos, histórias, meus tentares.

Ao nascer o Jornaleco saí em busca do escritor que Mécia afirmou-me vislumbrar, ao tomar contato com meus rabiscos, empurrando-me para este abismo extasiante de letras e sonhos. Duas dezenas de contos, alguns poemas e setenta e um capítulos de um romance ainda por concluir, de outro projeto em pesquisa e calhamaços de textos inacabados, a entulhar não mais gavetas de madeira maciça, mas arquivos sem conta, compondo pastas e subpastas num impessoal disco rígido, continuo à cata deste ser (ou será deste existir?), que somente consegui traduzir em avidez, e na angústia provocada por devaneios e personagens a ambicionar-se revelados.

Sei que desde aquele abril tudo mudou, todos mudaram. Eu muito. Nesse meio tempo hesitei muitas vezes e resolvi outras tantas, não todas. Não mais correspondo à foto da minha página no jornal. Com muito menos cabelos, bigode, alguns quilos a mais e pronto para comemorar meio século de existência, me vejo brigando com o corretor ortográfico que teima no trema dos cinquenta. Minha alma, contudo, segue povoada por Olek, Maricha, Nicolai, Christina e baba Lidja, por Lucas, Renata e Lia, e por tantos outros seres intangíveis e concretos, tão contraditórios como a vida. Seres que se misturam a outros que já se resolveram, que seguiram após o epílogo de uma história, e mais outros ainda por se apresentar, comungando com legiões de personagens vindos de todos os cantos e autores.

Precisei daquele empurrão para empreender esta busca, que se mostra inacabada, inconstante e diferente, por um ser (ou existir) que atormenta e se traduz em escritos, mas que me permitem usufruir da própria definição do Jornaleco por sua criadora e mentora, qual seja da possibilidade daquilo que não se completa; do esboço, do rascunho. Com isso percebi que do impulso não resulta o prosseguir por inércia, ao contrário, surge o exigir arrancar das entranhas ou o voar entre nuvens, o mutável decretado pelo incerto e imprescindível deitar das idéias no papel.

E agora desse afã não me desejo desatar.

Olgierd Sokolowski

 

 

Últimas atualizações:

 


Fátima Silva — Palácio do Catete: Museu da República

Anselmo Heidrich — Na natureza domada

 

 

sas a fazer

 

 

Escrevem para o Jornaleco:

Anselmo Heidrich
Fátima Silva
Janer Cristaldo
Márcia Denser
Mécia Rodrigues
Olgierd Sokolowski
e
Šwøk (='.'=)



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