Lançado
o desafio (ou concretizado o sonho) em abril de 2002, não
creio que se necessite do 2012 para comemorar um grande marco
do Jornaleco, que já passou por tantas (imaginem, até
lhe roubaram a casa, o endereço!), e mesmo assim não
soçobrou.
As cem edições já lhe assinalam muito bem
a trajetória.
Muitos daqueles que o acompanham já conhecem bem seu desenvolvimento,
mas para quem não o seguiu, bastaria a leitura do Jornaleco
99, apenas dessa última edição, para entender
porque perdura. Para perceber a sanha de Mécia Rodrigues
em transpor sensações etéreas para vocábulos
com afiada exatidão, a lucidez erudita de Janer Cristaldo
a desacomodar os não pensantes, o sarcasmo divertido do
Šwøk, o profissionalismo incisivo de Marcia Menser,
dragonisa das letras defumadas em nicotina, a perspicácia
irônica e emotiva de Anselmo Heidrich, ou Fátima
Silva e a afabilidade que deita às letras quando descreve
as belezas cariocas. Ao lado destes, e de outros que seguiram
para outras plagas, eu, com meus escritos, histórias, meus
tentares.
Ao nascer o Jornaleco saí em busca do escritor que Mécia
afirmou-me vislumbrar, ao tomar contato com meus rabiscos, empurrando-me
para este abismo extasiante de letras e sonhos. Duas dezenas de
contos, alguns poemas e setenta e um capítulos de um romance
ainda por concluir, de outro projeto em pesquisa e calhamaços
de textos inacabados, a entulhar não mais gavetas de madeira
maciça, mas arquivos sem conta, compondo pastas e subpastas
num impessoal disco rígido, continuo à cata deste
ser (ou será deste existir?), que somente consegui traduzir
em avidez, e na angústia provocada por devaneios e personagens
a ambicionar-se revelados.
Sei que desde aquele abril tudo mudou, todos mudaram. Eu muito.
Nesse meio tempo hesitei muitas vezes e resolvi outras tantas,
não todas. Não mais correspondo à foto da
minha página no jornal. Com muito menos cabelos, bigode,
alguns quilos a mais e pronto para comemorar meio século
de existência, me vejo brigando com o corretor ortográfico
que teima no trema dos cinquenta. Minha alma, contudo, segue povoada
por Olek, Maricha, Nicolai, Christina e baba Lidja, por Lucas,
Renata e Lia, e por tantos outros seres intangíveis e concretos,
tão contraditórios como a vida. Seres que se misturam
a outros que já se resolveram, que seguiram após
o epílogo de uma história, e mais outros ainda por
se apresentar, comungando com legiões de personagens vindos
de todos os cantos e autores.
Precisei daquele empurrão para empreender esta busca, que
se mostra inacabada, inconstante e diferente, por um ser (ou existir)
que atormenta e se traduz em escritos, mas que me permitem usufruir
da própria definição do Jornaleco por sua
criadora e mentora, qual seja da possibilidade daquilo que não
se completa; do esboço, do rascunho. Com isso percebi que
do impulso não resulta o prosseguir por inércia,
ao contrário, surge o exigir arrancar das entranhas ou
o voar entre nuvens, o mutável decretado pelo incerto e
imprescindível deitar das idéias no papel.
E agora desse afã não me desejo desatar.
Olgierd Sokolowski

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Olgierd Sokolowski
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Šwøk (='.'=)